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quarta-feira, 4 de março de 2009

DEDICATÓRIA

A todos quantos necessitam, necessitaram ou venham a necessitar de uma palavra de coragem que os ajude a suportar e a superar os revezes da vida.

CARO LEITOR

Escrever este diário constituiu para mim um óptimo placebo para – com a prestimosa e indispensável colaboração dos técnicos de saúde e dos milagres da medicina e da cirurgia – levar de vencida um cancro e meia dúzia de maleitas colaterais.Publicar este diário tomo-o eu como imperativo de consciência, na pressuposição de que a sua leitura possa proporcionar algum conforto, alguma ajuda, algum estímulo a quem sofre.O principal tónico deste diário talvez seja este: ESPERANÇA-CONFIANÇA.Não desanimar nunca, por mais dolorosa e cáustica que seja a experiência por que passamos; amar, sofrer e fruir sempre e sempre e sempre a vida. Na certeza de que quanto mais se porfia mais se alcança, de que parar é morrer, de que o que mais conta é viver, viver, viver…Até mais não poder ser.

AGRADECIMENTOS

Aos médicos, aos enfermeiros, ao pessoal auxiliar médico, a cujo saber, dedicação, profissionalismo e humanismo devo a vida;A todos os familiares e amigos pela força que me emprestaram e continuam a emprestar.

Ao Onésimo Teotónio Almeida, professor na Universidade de Brown, Providence, Rhode Island, USA, escritor e cronista exímio, cuja mestria e amizade ditaram um prefácio que muito me apraz e muito engrandece e enobrece este meu, ainda que muito sentido, despretensioso diário;

Ao Olegário Paz, mestre em Português e Literatura, leitor atento que, igualmente com mestria e amizade, me brindou com umas notas de leitura que vão muito para além disso;

Ao António J. Macedo Fernandes, meu querido e dedicado irmão que sempre me mimou com a sua profunda amizade e agora com um texto fraternal que muito me sensibilizou;

Ao Stuart Blazer (the last, but not the least) pessoa que não conheço pessoalmente, mas que nem por isso deixou de disponibilizar para título deste diário o seu feliz e apelativo achado – Mau tempo no anal.
André Moa
publicada por Andre Moa @ 6:48 PM 39 Comentários

Onésimo Teotónio Almeida

Nasceu em São Miguel, Açores, a 18 de Dezembro de 1946. Doutorado em Filosofia na Brown University, Providence, Rhode Island (EUA) é Professor Catedrático no Departamento de Estudos Portugueses da mesma Universidade. Tem em livro uma vasta obra literária que abrange contos, crónicas, peças de teatro, ensaios e outros géneros, sendo muitos dos seus textos integrados em obras colectivas de circulação internacional. Fundador da editora Gávea-Brown, que ainda dirige, foi Vice-Reitor do Rhode Island Council for de Humanities. Foi eleito membro da Academia Internacional de Cultura Portuguesa.

Cac(a)fonia em dói menor

Chega-me hoje um e-mail do José Guilherme. As notícias sobre a sua saúde continuam duras de se ler, mas o seu estado de espírito permanece inquebrantável:Não tenho passado nem andado bem. Diarreias atrás de diarreias e erupções de pele dolorosas têm-me prostrado e abatido fisicamente. Psiquicamente, felizmente não, pois sei que não passam de efeitos colaterais que é preciso suportar, para vencer e se atingir o desejado estado de saúde. Sei que vou consegui-lo. Sinto-o na alma e na pele. Graças à amizade e solidariedade dos amigos […].Hoje, graças a meia dúzia de comprimidos e uns copinhos de coca-cola sinto-me um tanto enxuto, mas já há três dias que não saio de casa nem da cama. Só há bocado, para aliviar as dores de costas que já vou sentindo, de tanto as esfregar no colchão, é que resolvi levantar-me e vir até aqui ao computador distrair-me um pouco. Aproveito para, agora sim, encarecida e prementemente, te solicitar o prometido prefácio. Estou a terminar a publicação do livro […].[1]Nem de propósito, minutos depois recebo uma chamada de pessoa amiga também do luso Rectângulo. Soa como vindo dos antípodas do e-mail do José Guilherme, apesar da infinitamente menor gravidade do caso. O marido, uma alta patente do exército – e porque não especificar? - um general, anda desensofrido por causa de um pequeno problema no braço e choraminga para a mulher a toda a hora. Ela perde a paciência: Os homens não aguentam dores nenhumas! - queixa-se. No entanto, não creio que sejam apenas os homens; em Portugal a doença parece um culto em que as pessoas se comprazem. Nesse coro, porém, desafina alto o José Guilherme. Cada e-mail seu, cada telefonema em que se lhe pergunta pela saúde, solta-se-lhe uma voz de luta assanhada pela vida, um optimismo vitorioso sobre as probabilidades da biologia, uma nietzscheana vontade de poder sobre a morte, uma voz de personagem de tragédia grega disposta a lutar contra a fatalidade e a dançar sobre o abismo, tudo traços verdadeiramente incomuns no solo pátrio onde a dor é poeticamente cantada (os brasileiros diriam curtida) e o sofrimento um masoquístico prazer, o pessimismo derrotista um elemento ôntico, parte integrante e quintessência da alma nacional. Dá gosto ver uma atitude tão discordante da parte de quem tem tido incontáveis problemas de saúde.Num impulso, deixo tudo e ponho-me a escrever este há tanto prometido prefácio que terá inevitavelmente de ser sobre as lições de optimismo e amor à vida recebidas da leitura deste seu livro, surgido a prestações de diário no meio de adversidades que só nos romances negros fazem sentido, e escrito muitas vezes deitado, como Proust, mas sem nada da sua pieguice.Não são muitos os precedentes nacionais de escrita sobre a doença. Há o clássico de José Rodrigues Miguéis em Um Homem Sorri à Morte (com meia-cara), páginas de um auto-diagnóstico lúcido em estilo analítico, objectivo, mas sem conseguir esconder a propensão para a hipocondria. Fica-nos dessas páginas sobretudo o retrato de um hospital noviorquino dos anos 40, que um artista como Miguéis soube tão habilmente fotografar. Muito mais recentemente José Cardoso Pires, em De profundis. Valsa Lenta, usou também os seus exímios poderes descritivos para relatar uma viagem de ida e volta ao quase-outro mundo. Inacreditavelmente apassional, está longe da ironia e da garra do seu Dinossauro Excelentíssimo escrito em dias de bem mais aguerrido e divertido estado de espírito. O livro – e parece que a opinião é generalizada – vale mais pelo prefácio do cirurgião João Lobo Antunes.Li recentemente acerca dessa espécie de boom nacional de livros relatando triunfos sobre a morte, alguns deles de figuras mediáticas, como o de Maria Elisa Domingues (Viver com Fibromialgia), escrito de colaboração com Jaime Branco. Confesso que apenas li acerca; não os li. Registo-os por serem uma novidade nacional, quando se trata de algo muito comum na tradição americana onde o optimismo, o espírito positivo, o ressurgimento após a queda ou a descida aos infernos é elemento constitutivo do ser americano. Longe de mim insultar o José Guilherme chamando-lhe “americano”! Pretendo apenas identificar uma característica que se me aparenta mais protestante e nórdica, definitivamente pouco portuguesa. Basta viajar num transporte público fora de Lisboa, onde as pessoas ainda conversam umas com as outras, e dar um pouco de atenção aos diálogos. Cada voz parece querer ultrapassar a vizinha no relato da gravidade da doença sofrida no passado ou agora.José Guilherme escreve sobre as suas mazelas com um bisturi. Disseca o corpo com distância como se as suas Guerras do Senhor Recto e de Dona Próstata fossem da estirpe das do Alecrim e Manjerona, aliás intenção óbvia ou intertextualidade não escondida pelo autor deste diário de um paciente. Atente-se no tom jocoso das referências à “Dona Bexiga”, “o pijama transformado em fato de gala”, a algaliação descrita como “arrastar atrás de mim o tareco”, “estagiar no purgatório” “ver o ânus ao lado do umbigo”, ”a procissão da caca”, “desassossego anal”, “efeitos cu-laterais”, “a sanita, minha pedra sacrificial”, “o Sr. Cu-Recto”, “fui e vim à ‘carreira do tiro’”,“o tráfego das fezes”, “a chegada da caca à alfândega”, “hoje à tardinha chegou a tão esperada encomenda. E logo gritei urbi et orbi, pelo telemóvel: Habemus merdam. E dos quatro cantos do mundo ressoou de imediato um hino de alegria, um sentido aleluia, um sonoro tedeum”.“Não há psíquico que se aguente por muito tempo em alta, com um físico tão em baixo, como não há somático que não sofra com um psíquico afectado”, confessa. Mas ao fim e ao cabo o José Guilherme emerge como contra-exemplo da sua própria afirmação. Na verdade, só um “empedernido optimista” (como ele admite ser) pode olhar para a dolorosa experiência da radioterapia nestes termos: “Quinta sessão de radioterapia. Só faltam quinze”.As passagens onde qualquer mortal sucumbiria na narrativa do sofrimento surpreendem-nos a cada passo. Repare-se nesta descrição de um acordar, como se em motel com portada de vidros para uma praia azul-turquesa numa ilha das Caraíbas:Custou-me um tanto a adormecer, mas, depois, dormi que nem um justo, até perto das sete da manhã. Às oito já estava pronto, tripa aliviada, barba aparada, banho tomado, para o pequeno-almoço que já cá canta, bem como a dose matinal de químio e mais uns comprimidos “caseiros”.Há mais, todavia. Muito mais:Hoje vai ser de costas. Vá lá, deite-se com jeitinho, cuidado com o saco e a algália, puxe as pernas mais para dentro, endireite-se e abrace a marquesa. Sou republicano até à medula. Cumpri escrupulosamente as indicações, abracei-me à marquesa, não me deu gozo nenhum, nem o mais ténue estremecimento de prazer. Nada. Bem pelo contrário. Deve-me ter repuxado a algália, fiquei com a uretra a sangrar. Mal regressei ao hospital, tive que mudar de calças de pijama, sujas de sangue atrás e à frente. Agora estou com um penso higiénico dos grandes, entalado entre as pernas. Pensava eu que os homens estavam isentos dos contratempos de menstruação!Um simples mortal lê um naco de realismo destes, esquece-se das dores que ficaram com o diarista e por momentos delicia-se sadicamente com tanto humor, tão triunfal distância sobre o sofrimento, tanta lucidez na escolha do verbo, tanta sagacidade no agarrar da palavra criativa a vingar-se da dor.Não vou citar mais para não retirar ao leitor o direito à surpresa em primeira-mão. Ia escrever que o meu papel aqui é apenas abrir-lhe o apetite mas, dadas as circunstâncias, reconheço não ser esta a melhor metáfora. A propósito de metáfora, Susan Sontag e o seu hoje clássico illness as metaphor – doença como metáfora – ocorreram-me frequentemente ao ler estas páginas, só que a Sontag faltou precisamente o humor viçoso da escrita de José Guilherme. No meio de sofrimento e inconveniências físicas de toda a ordem (dou comigo a copiar o tom do autor na referência às suas maleitas tratando-as como algo somenos), o nosso paciente lê imenso e espalha luminosidade em páginas reflexivas provocadas pelas leituras em que se embrenha. Não exagero. Vejam por exemplo os parágrafos magistrais sobre Saramago ou Vergílio Ferreira: retratos incisivos, certeiros, captando facetas desses escritores com um invejável poder de síntese (faz o mesmo consigo próprio em momentos de auto-retrato). É vasta a lista de autores sobre quem tece considerações ditadas pela mente crítica de quem agarra um livro com respeito mas sem veneração. Ele é Miguel Torga, Mia Couto, João de Melo, Rodrigo Guedes de Carvalho, António Lobo Antunes, Júlio Machado Vaz, José Gomes Ferreira, Antero, entre tantos outros[2]. Este diarista usa a cama da doença como banco de universidade, mas sem professor porque ele é que se auto-ensina escolhendo os autores que vai ler. Para mais, depois põe-se à conversa com eles sem a menor subserviência. Antero, por exemplo, inspira-lhe tiradas notáveis, urdidas de um misto de admiração e discordância a ponto de agarrar um clássico soneto seu (“Na Mão de Deus”) e virar do avesso o pessimismo suicida do poeta num anti-derrotismo heróico que lhe dita esta paráfrase do último terceto: “Com as forças que a Vida me tem dado / De peito aberto, da Morte descuidado, / Enfrento a Vida como posso e sei.”Neste contexto, o problema da fé – ou da ausência dela – é igualmente abordado com uma confiança desafiadora tanto do meio como do além desconhecido, sempre em termos humanos demasiado humanos de que Nietzsche se orgulharia. Na campa rasa de Nikos Kazantsakis está escrito: Não creio em nada; Não espero nada. Sou livre. Se lá fosse, José Guilherme leria o epitáfio em voz alta e transformá-lo-ia em Acredito na Vida, Espero a Vida, Não quero ser escravo da morte. Apesar de considerar esta “um refrigério, um repouso”, no fundo acredita que “viver é a única coisa que {…] resta”. Nietzsche nunca terá imaginado tão vigoroso comparsa no Portugal suave, do fado, do amor fati e dos bons costumes. Tudo isso com a consciência de que se não é eterno porque (citando com ele José Gomes Ferreira), “viver sempre também cansa”. A fazer recordar outro que, ao admoestarem-no que fumar é morrer devagar, ripostou: Mas quem é que está com pressa?A poesia que entremeia estas páginas respira a mesma ânsia de viver, idêntica busca de sol, de luz, da palavra redentora que aponta estradas à frente, caminhos a percorrer, espaços a desvendar, como se o palácio da ventura de Antero existisse, e fosse importante descobri-lo e encher-lhe de luz e vida o silêncio e a escuridão.Que melhor medicamento se pode recomendar, quer a doentes quer a gente saudável mas consciente da precariedade da saúde, do que estas páginas profundamente inspiradoras e transpirantes de resiliência? No fundo, todos nós, crentes ou não, que já não vivemos na Idade Média nem estamos como os muçulmanos à espera das doze mil virgens, sentimos mais ou menos como Woody Allen: Não quero atingir a imortalidade através do meu trabalho; quero atingi-la não morrendo. Não quero continuar vivo no coração dos meus compatriotas; prefiro continuar vivo no meu apartamento.Estas páginas escritas no sofrimento e lidas por alguém que não imagina como conseguirá atingir um mínimo de tolerância à dor quando chegar a sua vez, não me deixaram incólume. Fui genuinamente tocado por elas, caso o leitor não tenha notado. (:>) Elas trouxeram uma dimensão real, autenticamente real, a uma das estórias que gosto de contar:O CEO de uma grande empresa em situação financeira depressiva seguiu o conselho de afamado consultor especializado em psicologia colectiva decidindo abrir uma vaga para gestor de pessoal que tivesse acima de tudo uma personalidade visceralmente optimista. Sempre seguindo conselhos do psicólogo, fez submeter os candidatos finalistas a um teste muito especial. Foi-lhes pedido que se imaginassem num caixão, em velório, e revelassem o seu mais íntimo: Que mais gostariam de ouvir às pessoas que lhes iam dizer o último adeus? O primeiro dos concorrentes respondeu: Adoraria ouvir: ‘Este homem tocou a vida de todos com quem se cruzou’. O segundo: Por mim, preferia: ‘Este homem deixou um mundo bem melhor do que quando nasceu’. Chegou a vez do terceiro: Cá por mim, o que eu gostaria mesmo de ouvir era: ‘Olhem, olhem! Ele ‘tá-se mexendo! ‘O José Guilherme continua a mexer-se, irrequieto e insatisfeito. A vida que ele tanto deseja, mesmo nas condições em que a usufrui, respira-se nestas páginas que contaminam quem as lê. O seu espírito contagia. Eu, pelo menos, fiquei contagiado e tenho a certeza de que o leitor também quando embarcar na experiência deste diário. O neto, que lhe dá injecções de vida, um dia adorará ler este avô e, mesmo se não souber latim, entenderá em cheio o significado da máxima romana Carpe diem!Providence, Rhode Island, 20 de Janeiro de 2009Onésimo Teotónio Almeida[1] E-mail de 19 de Janeiro de 2009.[2] Um caveat ao leitor: notei-lhe aqui e ali variações (no sentido de variar, delirar), aparente efeito de breves alucinações quando se refere a mim e a livros meus. Mas isso é compreensível atendendo ao seu estado de saúde. A cegueira resultante da amizade pode ser uma explicação alternativa. Mas sobreleve-lhe o leitor esses deslizes e passe adiante porque logo de seguida o autor retoma a lucidez.


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Olegário de Sousa da Paz

Nasceu na Beira, Ilha de São Jorge, Açores, em 1941. Estudou no Seminário e trabalhou como padre e professor em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo. Vindo para o continente em 1975, licenciou-se (História e Estudos Portugueses) e fez mestrado (Literatura Oral e Tradicional). Aposentado do Ensino Secundário, é co-autor de manuais escolares e outras obras didácticas. Tem publicado trabalhos de diversa natureza, mormente de carácter literário, e ultimamente empenha-se na divulgação da obra do escritor açoriano Dias de Melo. Vive na Amadora, Portugal.Notas de Leitura
Saibas que este texto não é uma recensão no sentido técnico do termo, apenas a comunhão de ideias e emoções que a leitura deste diário me foi oferecendo. Saibas que me considero minimamente apto a percebê-lo porque também vivi uma situação de certo modo semelhante no que toca aos atropelos com que a sorte decidiu brindar alguns de nós. Saibas que admiro e invejo a forma exemplar com que enfrentaste a adversidade, postura que poucos conseguem assumir – esta força, esta coragem, este optimismo, este ar jocoso que é muito teu e que a tua escrita bem reflecte.Três considerações à cabeça. A primeira: tem toda a razão Ernesto Leandro quando te coloca «nos cornos da lua» como mestre da escrita. A começar pela variedade e riqueza do vocabulário, pelo ritmo e melodia da frase, pelas estruturas do período, do parágrafo, do texto, tudo justifica a sua afirmação, que não terás o direito de atribuir apenas à amizade. A segunda: deve realçar-se a fuga à tentação do abatimento (quiçá desespero), nos momentos mais pesados da dor e da incerteza, e o repúdio da lamecha característica de certos temperamentos e sociedades. Por fim, uma terceira: o distanciamento motivado pelo convite que o teu discurso faz a que o leiam não tanto como um desabafo intimista, mas mais como uma espécie de narrativa em forma de diário que diria ‘típica’, à maneira dos textos que muitos tendem a classificar de ‘estórias’.«A Vida, cantemos a Vida!» é a frase que melhor resume a tese defendida por André Moa. Trata-se do núcleo onde se concentram os fios condutores das mais diversas, pungentes, desesperantes experiências por que passa Zé Fernandes. A começar pelos conceitos de Deus e de Santo.O conceito de Santo passa inevitavelmente pela capacidade de amar a Vida, revelada no dia a dia por aqueles com quem conviveu e convive – personagens, quase sem nenhuma excepção, que escolhe, ou a fortuna lhe colocou no caminho, e constrói com os materiais preciosos da amizade e da solidariedade. O Deus, que para o padre Manuel António, inspirador deste diário através do testemunho de coragem e amor à vida, é o do Amor Revelado, surge-nos aqui como que Panteísta à maneira de Alberto Caeiro «guardador de pensamentos simples e naturais comuns a todos os seres e a todas as coisas»: “[...] se Deus é as árvores e as flores e / E os montes e o luar e o sol, / Para que lhe chamo eu Deus?”. «Cheguei à conclusão de que aquilo que os místicos apelidam de Deus se confunde com o conceito de Vida». Como a um tal Francisco de Assis, esta visão da divindade leva-o a irmanar-se, ora com o melro que «Lá fora, deu em assobiar, de forma requebrada e repetida [...]. Assobiou-me assim: ‘Aguenta-te, Zé Guilherme! Vê como a vida é bela’»; ora com as andorinhas na Primavera, pois «fico embasbacado a olhar para elas e a seguir seu voo elegante e ladino»; ora com os pardais que «Parece que se divertem, enquanto fazem pela vida»; ora, ainda, com o gato, se bem não se sinta muito atraído por felinos, «Olha, olha! Por entre as árvores, passa um gato gigante, em passo pachorrento e lento. Olá, senhor gato! Em ti saúdo hoje a Vida.» Ateu confesso, não deixa, à maneira de Antero de Quental (“O povo há-de um dia entrar dentro do Templo / E há-de essa rude mão erguer-se sobre o Altar”), de socorrer-se da linguagem tanto bíblica – «o trigo do joio, o argueiro da trave» –, como litúrgica – «Amen! Amen!» – para expressar a suas convicções e sentimentos. O que não se estranhará, se se tiver em linha de conta, além de outras, a experiência de «três anos e três meses de Seminário» ou aquela em que, participante activo na liturgia da palavra de celebrações eucarísticas católicas, participava no apelo à mobilização por um mundo mais justo e solidário.Esta personagem de paciente tem um duplo rosto: «O [do] eu profundo» e «O [do] outro eu» como se lê em “AO ESPELHO” um dos mais belos e eloquentes dos muitos poemas que espalha nas páginas do diário. O eu do último verso, «E eu gosto mais de cantar», é o do «empedernido optimista» que canta quando lhe apetece chorar. O outro eu, o do espelho, é o do «Corpo doente [...] Que só ri se eu sorrio»: «Este vosso Zé tem força! / O doentinho é que não. / O doente está na fossa; / O Zé faz um figurão.» Por estranho que pareça, não é o eu «doentinho» no hospital, o das metáforas do monge no convento, do preso na cadeia, que se salienta ao longo do discurso, sim o Zé «figurão», ao mesmo tempo erudito e popular, escritor e leitor, filósofo e poeta, pai e avô. Erudito que se movimenta à-vontade por entre Camões e Antónios Josés da Silva, Almadas e Augustos França, Pessoas, O’Neilles e Vergílios Ferreira, Onésimos e Saramagos, Jotas de Melo e Mias Couto; popular que não regateia o recurso abundante ao adágio, à máxima, ao rifão; escritor que conduz o leitor pelos mesmos inquietantes meandros da não omnisciência típica do narrador auto-diegético, isto é, do narrador que só conhece da intriga aquilo que vai acontecendo em cada momento; filósofo da reflexão sobre os enigmas da existência e da religião, da arte e do pensamento, dos princípios e dos fins, da paz e da guerra, da dor e da esperança, da vida e da morte; poeta que se nega a definir a sua arte: «Prefiro que a poesia seja e continue a ser apenas poesia e que cada um a defina a seu bel-prazer e consoante as próprias apetências e (ou) necessidades»; pai dedicado e avô babado dum menino de meses «Vivo, esperto e ladino. Como desejo que ele venha a ser. E bom, e justo, e feliz».Nas últimas entradas do diário, fins de 2006 e 2007, onde se observam não poucos saltos cronológicos, destaco a sua visão bem humorada do espectro político, demarcando-se explicitamente como «arco regular da esquerda» e o optimismo com que sempre soube enfrentar os contratempos porque “esses [motivos para dizer mal da vida] não são para aqui chamados”. O tema da morte escolhido para o “Epílogo” é corolário lógico. «Se viver é sofrer, que bom será um dia morrer!» canta no poema que abre o diário. Tenha ele fugido à morte ou a morte fugido dele ao longo do tremendo calvário de treze meses, André Moa entendeu dar-lhe aqui o relevo devido, agora que, “bicho da terra tão pequeno” no dizer de Camões, se sente recuperado, pronto a enfrentar os desafios que a vida («A Vida, cantemos a Vida!») lhe reservar.Amadora, Janeiro de 2008.Olegário Paz

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Terça-feira, Janeiro 27, 2009

António Joaquim Macedo Fernandes

Nasceu a 10 de Setembro de 1944, em Tabuaço, concelho românico e romântico do Douro Vinhateiro, património mundial. Fez de tudo na vida, sempre com entusiasmo, dedicação e alegria. Homem generoso, bondoso e solidário, é um santo e dedicado irmão.FraternalmenteEra meu propósito verter de imediato para o computador as sensações provocadas pela leitura do “Diário de Um Paciente”, mas, como entretanto se meteu a minha operação, depois as festas, e mais isto e mais aquilo, o tempo foi passando, pelo que, só hoje, neste bonito dia de Janeiro, cinzento e chuvoso, por isso, um óptimo dia de Inverno, e como estou em casa, logo, com mais tempo para o fazer, aqui estou a dar a minha opinião.Para mim, que te acompanhei, vi, senti e sofri, o “Diário de um Paciente”, para além de ser um diário que vai contando o dia a dia de um “doente muito sofredor, mas muito paciente”, é uma lição de vida e um exemplo positivo a ter em conta por aqueles que algum dia possam ter a desdita de passar por isso. Porque as coisas não acontecem só aos outros, bom seria que todos estivessem preparados e dissessem e pensassem o que tu pensas e dizes, com muito altruísmo e muita serenidade: “Porque não a mim?”!Acho que quando sofremos e temos a clarividência da realidade, da fragilidade do ser humano, consegue-se encarar a vida sempre com espírito positivo, seja ela boa ou menos boa, saudável ou menos saudável, recheada de vitórias ou de derrotasA força e a alegria de viver por ti demonstradas ao longo desses nove meses e três dias (este o tempo mais contabilizado e sofrido, pois foi o tempo em que andaste algaliado) são a prova de que o ser humano tem dentro de si forças desconhecidas e muito fortes que só alguns as vão buscar para enfrentar com estoicismo, resignação e, porque não, alegria, a adversidade que te aconteceu.Por isso digo que tu foste um herói, um lutador, um sofredor, mas um grande vencedor. Acabaste por escrever um livro tal como tu és: um poeta, um escritor, um grande homem.Eu que também sou positivista e optimista, depois de ter acompanhado e agora ler o teu diário, cheguei à conclusão e pergunto-me, se teria tido toda esta coragem por ti demonstrada. É que eu só lá estive quatro dias!...Repara só na diferença de tempo e sofrimento, porque eu, meu caro irmão, felizmente até hoje, não sofri a milésima parte daquilo que eu sei que tu sofreste.Antes de terminar, direi que ler este livro não foi fácil, porque cada página fez vir à minha memória toda a dor e sofrimento que presenciei.Na tua escrita nunca sobressai todo esse tormento e amargura; pelo contrário, tens sempre um pensamento positivo e uma força avassaladora que até parece que foram umas férias bem passadas num hotel de cinco estrelas todos aqueles meses de tormento. Quem não viveu contigo este longo período de sofrimento não pode nunca imaginar o que realmente se passou ao ler simplesmente o “Diário de um Paciente”.É preciso ter também já sofrido alguma vez algo para compreender o que é realmente estar doente e sofrer as agruras físicas e psicológicas da doença.Muita saúde, muita força, muita energia, muita paciência, caro irmão. Tens um lindo e querido neto para ajudares a criar e eles, todos os netos do mundo, precisam muito dos avós.Um abraço.TóMonte Abraão 13 de Janeiro de 2008António Joaquim Macedo Fernandes

publicada por Andre Moa @ 9:14 PM 4 Comentários
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009





Um diário , uma carta, ou simplesmente as memórias.
Nós lemo-las com um prazer diferente
de uma obra de arte ou mesmo
da arte que está nelas.
Não é bem o de saber o que aconteceu,
mas o de estarmos nós acontecendo
nisso que aconteceu.
Ou seja, de prolongarmos a nossa vida até lá.¨

”Vergílio Ferreira
(Escrever)



“…não era de todo desengraçado
publicar mais tarde,na íntegra,
os frutos insossos de alguns dias de repouso.
Um voluminho doméstico, espontâneo,
descuidado, para o qual eu fosse, como leitor,
sem a relutância com que vou sempre
para os outros que escrevi.
Sendo um livro para o público…
…. seria também um livro meu,
o que poucas vezes acontece a um autor.
Precisamente porque seria íntimo –
mas de uma intimidade arejada, de férias –,
feito sem pretensões,
apenas com a manha necessária
para interessar também a curiosidade alheia,
poderia guardar em si o calor que tem,
por exemplo, um casaco modesto e familiar,
que se veste no Inverno por debaixo do sobretudo.

”Miguel Torga(Diário – Volume I)


Etiquetas: Vergilio Ferreira e Miguel Torga
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PRÓLOGO
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GUERRA DO SENHOR RECTO E DONA PRÓSTATA
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As meninas próstatas têm a mania que são muito sexy, e até são. Sexo é com elas. Algumas insaciáveis, outras comedidas, as restantes assim-assim, mas todas predispostas para a brincadeira. Pelo menos prosápia não lhes falta, se a avaliarmos pelo linguarejar bazófia dos seus hospedeiros. Enquanto estão para aí voltadas, não há dúvida que prestam bons e gostosos serviços. O pior é quando elas se inflamam. Tornam-se insuportáveis, não há quem as ature. Mandam às malvas as normas do bom funcionamento, acabam por tirar o juízo aos seus senhores e donos que, durante décadas, beneficiando embora dos seus bons préstimos, nem pela sua existência deram. Por vezes, Dona Próstata porta-se tão mal, vai tão para além dos toleráveis limites, que o único remédio será pô-la com dono. - Portou-se mal? Não tem emenda? Rua!
Claro que o prazer do corpo nunca mais será o mesmo, mas, ao menos, passa-se o resto da vida em paz e sossego, sem ter que lhe suportar as contundências nem sofrer as consequentes incontinências. Ao lado, mesmo ao lado da senhora dona Próstata, mora o senhor Recto. Discreto e sonso, o senhor Recto recebe e aceita, com paciência de Job, toda a merda que os intestinos lhe enviam e que ele, diligentemente, vai expelindo, conforme pode. Farto de remover trampa, o senhor Recto, por vezes, vai-se abaixo das canetas, dá em definhar. É então que o comum dos mortais se apercebe da sua humilde mas profícua existência, da sua enorme importância. No que me diz respeito, pelo que vou colhendo da sapiência dos especialistas na matéria, o meu senhor recto tem maleita. Não se queixava, mas algo de maligno o andava a minar. Parece que está a precisar de rápida e firme intervenção cirúrgica, uma vez que a “situação é premente”, no dizer dos entendidos. Se é premente, como para grandes males grandes remédios, para a faca já e com jeito. Já, é como quem diz! Quando puder ser, que isto obriga a preparativos e cuidados, e tudo leva o seu tempo.
A minha Senhora Próstata por certo que se apercebeu das súbitas e aturadas atenções ultimamente debotadas ao seu vizinho, “esse desprezível e abjecto ser que passa a vida a chafurdar na merda” como ela, armada em importante, dirá, imagino eu, sempre que ao Recto se reporte. Dona Próstata não deve ter gostado de se ver relegada para segundas núpcias. Invocou os seus pergaminhos de Dona e de Próstata, bateu o pé, deu em barafustar. Acossada por uma súbita e inesperada crise de ciúmes, despeitada pelas atenções, os salamaleques, o tratamento VIP concedido ao vizinho, deu em manifestar-se de forma desabrida, direi mesmo (eu que a sofri) insuportável.
GUERRA DO SENHOR RECTO E DONA PRÓTATA começou por ser o título aprazado para este livro. Aconteceu que numa das suas diacrónicas que formam o livro LIVRO-ME DO DESASSOSSEGO Onésimo Teotónio Almeida fala de um seu amigo – Stuart Blazer – que um dia sintetizou os males intestinais na frase MAU TEMPO NO ANAL. Invejei-lhe o achado, como refiro no diário. Vem agora manifestar através do nosso amigo comum (o Onésimo) que ficou muito contente ao saber da minha reacção e que insistiu para me dizer que poderia usá-lo como título e que se sentiria muito honrado com isso. Resolvi, pois, perante tamanha e generosa disponibilidade, meter honra e proveito no mesmo saco, puxando-o para título principal deste Diário de um Paciente. Aqui reitero o meu reconhecimento ao Stuart Blazer.
Há anos sob controlo atento e aturado, aproveitou-se da ingestão de litro e meio de água e da necessária contenção da urina (como preparação para uma TAC que permita uma melhor avaliação do estado do senhor Recto) e deu em inflamar-se como nunca, em crescer num sentido até agora pouco ou nada explorado. Resultado: retenção total das urinas, três horas de espasmos e dores horrorosas, internamento antes do tempo, algaliação… Uf! Que alívio. O pior é que Dona Próstata continua a pressionar, pelo que os espasmos dolorosos permanecem. Com esta sua diabrura, uma coisa irrecusável ela já conseguiu e impôs. Segundo o urologista, só a cirurgia remediará o caso. O pior é que até lá o hospedeiro terá que andar algaliado. Pergunta este, meio assustado: “Quousque tandem?” Até quando estes espasmos insuportáveis que me fazem mijar pelas pernas abaixo, malgrado a algália?” É a vez do hospedeiro, meio agastado com as perspectivas pouco animadoras, se manifestar com uma certa rudeza: “Porrinha, Dona Próstata! Não podia ter esperado por ocasião menos azarada para reclamar? Zangam-se os hóspedes, e o hospedeiro é que paga as favas, é?” Dona Próstata a isto nada responde, nem xus nem mus, mas continua a levar a sua avante. É caso para dizer, nem que seja como sofrido desabafo de quem, por causa dela, está a passar as passas do Algarve: “ciúmes de próstata, o diabo que os ature!”. Para apaziguar os ânimos e aplacar a fúria, chegou a levantar-se a hipótese de serem intervencionados ao mesmo tempo: uma equipa atacaria por trás para acudir ao senhor Recto, outra actuaria pela uretra, para tentar acalmar os arrufos da megera. Mas premências são premências. Pelos vistos, o senhor Recto está numa de apuros a reclamar urgência. Ao que parece, não haverá ciumeira, por mais tresloucada, ardorosa e refinada, que leve a alterar a situação. Primeiro o Sr. Recto; a seu tempo a Dona Próstata. Ao fim e ao cabo, será o senhor Recto, com toda a sua pachorra e humildade, que, dada a urgência e a gravidade do seu estado, vai decidir sobre tão disparatada contenda. A solo ou a duo? Eis a questão. Por mim, seria preferível a duo. O senhor Recto, por si, também não se importará, mas… Tudo vai depender da evolução do mal, da possibilidade de intervenção simultânea e da necessidade ou não do senhor Recto ser consertado pelo abdómen, de barriga aberta, como vulgarmente se diz, que eu de medicina não entendo nada, até o vulgar se me escapa. Por mim, como hospedeiro e amigo de ambos, interessado em que reine a paz e a concórdia e em que a harmonia se reinstale o mais depressa possível, torço pela simultaneidade, pela recuperação rápida de todos. Até porque a paciência tem limites e eu começo a ficar farto de aturar guerras destas, piores que as guerras do alecrim e manjerona que o António José da Silva – O Judeu – recriou e nessas tramas se queimou, se queimou não, foi queimado, por desiderato da Santa Inquisição, em nome de Jesus, o salvador, e com o beneplácito de sua majestade o rei. Ora, eu não desejo nem quero ver o meu rico corpinho transformado em campo de batalha, em terra queimada. Por isso, vos imploro, Dona Próstata, Senhor Recto: deixem-se de guerras de xixi e caca! Tomem juízo, deixem-se de ódios intestinos! Cooperem, vá lá, para que tudo regresse à normalidade. Todos teremos a ganhar. Até o meu netinho que acaba de nascer, e que é lindo, lindo (ainda mais lindo que o avô) e inocente, e sem mácula, coitadinho, e que eu quero ver e ajudar a crescer em idade e sabedoria.
Portanto, que este vosso arrufo passe depressa, que o bom funcionamento seja rapidamente reposto, para bem de todos. Que a guerra do Sr. Recto e Dona Próstata termine cedo e bem! Amen.




EPÍLOGO
Se este arrazoado começou por um prólogo parece-me razoável que termine com um epílogo. À guisa de conclusão ou de fecho, já que para isso é que os epílogos servem, apetece-me acrescentar duas ou três ideias que, enquanto sofri, vivi e escrevi este diário, me martelaram a cabeça e aqui quero vazar, quanto mais não seja, para delas me ver livre. A primeira surgiu de um reparo feito por um amigo a quem dei a ler parte deste diário. Para esse amigo, eu teria fugido, como o diabo da cruz, de falar, de enfrentar a morte. A minha resposta é simples e sincera. Eu não fugi da morte. A morte é que fugiu de mim. Nunca pensei fugir da morte. Tentei, isso sim, varrê-la de mim, porque não estava, como ainda não estou, disposto a entregar-me. Encaro a morte (tento encará-la e julgo que o tenho conseguido) com naturalidade, sem sobressaltos de maior, sem quaisquer problemas metafísicos ou transcendentais Sei que é um fenómeno inexorável, um daqueles factos “certus an, incertus quando”, que acontece quando tiver que acontecer, e isto me basta para nem a desejar antes do tempo nem a abominar como uma criança medrosa abomina o papão com que pais e familiares aterradores lhe acenam a toda a hora. Vejo na morte um remédio para o tédio que uma vida eterna seria. Como escreveu José Gomes Ferreira: “viver sempre também cansa”. Considero a morte um refrigério, um repouso, com a vantagem suplementar de não haver retorno. Com a morte alcança-se o sossego absoluto, o descanso eterno. Dito isto, quero afirmar e reafirmar o meu apego e amor à vida, o meu gosto de viver. Por isso não penso no fim, antes procuro viver cada dia como sendo o primeiro do resto da minha vida, como nos ensina, cantando, Sérgio Godinho. Não alimento, isso sim, nem me deixo embarcar em ilusões. Não temo a morte, não me iludo com fantasias mórbidas, inconsequentes, enganadoras. Se me quisesse docemente enganar, então preferiria emprestar asas àquela fantasia, por mim tantas vezes imaginada, e que um dia tenho de transformar num conto ou coisa do género para não pensar mais nela, pois que não passa de uma morte desejada, de um fim apetecido que, sei-o bem, não passam de meros frutos da parte mais delirante de mim. Resumidamente, o conto seria assim: “Quando cansado da vida, tomarei um barco e navegarei à deriva até que as águas me abracem e os oceanos me cubram, e um pargo me engula. Deglutição consumada, o pobre pargo é pescado, vendido, cozido e servido, em baixela de prata, a uma princesa republicana, bela, inteligente e donairosa. Às tantas, o pargo dá em estremecer as pálpebras e lança à princesa um forte e sentido piscar de olho. Numa primeira reacção, a princesa alvoroça-se toda e lança no éter uns gemidos eróticos, uns gritinhos histéricos. - Sou eu, princesa, não temais. Sou eu, o vosso príncipe encantado, transformado pela morte neste belo pargo, para assim poder chegar até vós. Tomai-me e comei-me, princesa da minha vida, que eu quero ser para vós o único, o verdadeiro e eterno alimento. Ao ouvir tais arroubos, a princesa volta-se para o pargo, isto é, para mim, e, toda derretida, toda delicodoce sorri e, com uma sensualidade nunca dantes vista nem imaginada, dá em comer-me, calma, saborosa e dengosamente, até ao cunzo, até ao fim”. Que linda morte! Que delicioso fim! Sim, não seria mau de todo, mas como não me perco em fantasias, hei-de morrer, não como nem quando me aprouver, sim da maneira que for e quando tiver que ser. Sem temores nem devaneios, como veementemente desejo e espero. De repente, acudiu-me mais uma ideia, que é esta: a gente não morre de uma só vez, vai morrendo aos poucos e de várias maneiras. Eu senti-me morrer com o meu filho mais novo que um acidente trágico e estúpido ceifou, tinha apenas sete anos e meio. E com o meu irmão mais novo, igualmente vítima do mesmo acidente de viação, quando se preparava para juntar os trapinhos e casar. Eu sinto-me morrer sempre que morre um parente ou um amigo meu (estou a lembrar-me neste momento de quanto morri com a morte do meu pai, do Manuel António e do Manuel Raimundo). Sinto-me morrer com a morte de um ente querido, como me senti renascer com o nascimento de cada filho e do meu neto. Até que um dia, sem o sentir, morrerei de vez. Talvez que outros morram um pouco comigo, quando chegar a minha hora definitiva, mas essa é uma questão que só a esses outros dirá respeito. A mim não me aquecerá nem arrefecerá, porque já não me dirá respeito. A propósito, deixo aqui expressa mais uma ideia. Será a última, espero. Há quem se preocupe em vida com a sua morte, com os detalhes do seu funeral. Há quem adquira, ainda vivinho da costa, o caixão e o guarde debaixo da cama ou atrás da porta. Há quem deixe, como manifestação de última vontade, ordens e rogos sobre o seu próprio féretro. Há dias, um amigo ameaçou que me iria enviar uma carta, a descrever como e onde queria ser enterrado. Aceito e compreendo esses devaneios, mas não deixo de os considerar tolos e autoritários. Tolos, porque de nada servirão; autoritários, porque pretendem impor aos outros, geralmente aos familiares (que se esfarraparão por cumprir escrupulosa e religiosamente a vontade do morto) as suas lúgubres lucubrações. Sobre este assunto penso o seguinte: depois de morto, cevada ao rabo, façam de mim o que quiserem. Era o que faltava: pretender impor as minhas ideias mesmo depois de morto! Concedo a quem tiver que fazer o frete de tratar do meu funeral inteira liberdade de decisão. Tanto me faz ir de burro, como de cavalo, vestido ou nu. Tanto me faz apodrecer numa valeta, como num mausoléu. É-me indiferente (depois de morto tudo me será indiferente) ser enterrado ou cremado, que façam de mim uma múmia ou que espalhem as minhas cinzas num roseiral ou numa estrumeira. Quero lá saber de missa presente ou padre ausente! Isso fica a cargo e ao gosto de quem ficar com a incumbência de me remover. Que se desfaçam de mim (a tempo e horas, já agora, não vá o cadáver apodrecer à luz do dia e se tornar em algum foco de infecção) da maneira que lhes aprouver. Sou ateu, vou morrer ateu. Se tal não acontecer é porque me tornei caquéctico e xexé, um idiota, um imbecil. Desconfio que vou ter um funeral religioso, mas isso não me fará mossa. Importa-me, sim, não forçar, não obrigar ninguém a desempenhar um papel que não sinta ou vá contra os seus princípios mais elementares. Que me chorem, se sentirem a minha falta, mas com paz de espírito e de acordo com o seu modo de ser, de estar e de viver, que encomendem e cumpram os rituais que os apazigúem. É isto que sinto, é isto que desejo que de mim façam, na hora de se desfazerem de mim. O que bem lhes apetecer. Quero lá saber, já estarei morto! O poeta Mário Sá Carneiro declarou em verso que pretendia ir de burro. Eu gostaria de ir pelo meu pé. Isso sim, que era sinal de que ainda não tinha ido desta para a cova, de que o velório e o cortejo fúnebre ainda não eram os meus. Quando muito, se quiserem, e se isso não ferir os ouvidos nem a carteira nem os sentimentos de quem me acompanhar até à última morada, que ponham atrás do caixão uma boa banda a tocar uns bons trechos musicais que possam ajudar a minorar a tristeza de quem sentir necessidade de me chorar. Se eu ainda tivesse orelhas que ouvissem, não me importaria nada de ouvir até à tumba, por exemplo, o hino da alegria do senhor Ludwig van Beethoven ou um allegro do menino Wolfgang Amadeus Mozart ou a soleníssima e sereníssima marcha fúnebre do romântico Frédéric Chopin Como irei deitado e de orelha murcha, não me dêem ouvidos e façam de mim, livremente, o que quiserem, o que vos der na real gana, o que, em consciência, vos aprouver. O que eu verdadeiramente desejava era não morrer nunca. “SE EU NÃO MORRESSE, NUNCA! E ETERNAMENTE BUSCASSE E CONSEGUISSE A PERFEIÇÃO DAS COISAS!” Também eu gostava, amigo CESÁRIO, também eu! Ah! Mas são VERDEs... E com esta vos deixo, caros amigos. Vamos à vida, que a morte está certa.

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