ainda se tenta
a mirífica euforia
aos setenta
só se senta
no sofá da sabedoria
no amado colo da poesia
É verdade! Dos setenta que já cá cantam, conto sessenta de poesia. Isto porque o primeiro poema de que hei registo data de Dezembro de 1949, tinha eu acabado de perfazer dez anos. Mais do que poema, caberia chamar-lhe primeira tentativa de um aprendiz de feiticeiro, de um atrevido poetastro de palmo e meio, mas atendendo à idade e demais circunstâncias, será de desculpar o atrevimento e perdoar a vaidade.
Se nos reportássemos aos primórdios em que manifestei, oralmente, os meus dotes de versejador precoce e ousado, teríamos de recuar pelo menos mais três anos.
Dos seis aos nove anos passei parte do Verões em Carrazedo[1], onde nasceu minha mãe e onde viviam minha avó, minha tia Lucinda, minha tia Maria, meu tio António e meu tio Manuel. Por ali andava um mês e tal à rédea solta. Em casa da Tia Maria e do tio Artur, que tinham um filho, o primo Agostinho, da minha idade, é que eu assentava arraiais.
Carrazedo é um pequeno e sertanejo lugar situado a uns três escassos quilómetros da aldeia sede da freguesia – Pinheiros[2] - de que aquele lugarejo é parte integrante.
A 16 de Setembro é a grande festa da paróquia, em honra de Santa Eufémia, a padroeira de Pinheiros, festividade popularmente conhecida como a festa da canalha.
Como acontece (acontecia, pelo menos, na época a que me reporto) noutras festarolas da região, na noite anterior montam-se as tasquinhas, à volta das pipas atestadas de vinho, colocadas em cima de carros de bois acabadinhos de chegar, vindas sei lá eu donde. Que nem abelhas atraídas por mel, logo um magote de homens se juntava no arraial da festa, para dois dedos de conversa, enquanto iam provando o vinho das várias tascas para avaliarem qual o melhor. O meu tio Artur era, verifiquei-o eu in loco e reiteradamente ao longo dos anos, dos mais assíduos. Todos os anos fazia questão de me levar consigo, apesar dos remoques da minha tia, até porque teve em mim, desde o meu primeiro ano por estas andanças, um cúmplice entusiasmado e à altura. Palavra puxa copo, copo puxa palavra cada vez mais animada, não tardava que os mais dotados para a cantoria entrassem em despique, ao desafio, acompanhados por alguma guitarra repentinamente surgida nas mãos do tocador, como que nascida do chão.
Gente rural, analfabeta até à medula, só o copito a mais lhe abria a boca e afinava a garganta. Com o meu copito no bucho para combater o relento da noite e assim entrar de corpo e alma na súcia, para espanto de todos, dei também em lançar a minha quadra que o silêncio da noite transformava em cantar celestial ao roçar as orelhas dos presentes. E riam, e puxavam por mim, e acicatavam, e davam-me corda e guita e eu a corresponder, à letra, para espanto geral e incontido orgulho do meu tio. E ai dele se no ano seguinte não levasse o poeta petiz.
Mas de tais quadras ditas de improviso nessas noites de descantes e guitarradas não me ficou o menor registo, pelo que não contam, apesar de, em bom rigor, ter sido aí e dessa forma que despontou e despertou esta minha queda para a trova.
[1] Carrazedo - O lugar de Carrazedo encontra-se implantado num outeiro que se ergue à beira da Estrada Municipal 514.O viandante que percorra as suas ruas pode apreciar a sua Igreja dedicada ao Salvador do Mundo, onde imperam os estilos maneirista, barroco e neoclássico. A sua fachada principal apresenta-se rematada com empena truncada por campanário. No seu interior destacam-se os retábulos do altar-mor e da capela de Nossa Senhora do Rosário, em talha dourada do barroco nacional, e que denunciam o início da transição para o estilo joanino. Conserva belos tectos de caixotões na capela-mor e na capela lateral, com pinturas retratando Santos e o Apostolado. Seguindo os diversos cruzeiros que compõem a Via-sacra de Carrazedo, o visitante passará pela seiscentista Capela de Nossa Senhora da Conceição, antecedida por um calvário, e que se localiza em frente da Quinta da Moita, hoje ligada ao turismo rural. Depois, mais perto da Igreja, poderá apreciar uma casa seiscentista com austera escadaria de granito ornamentada com volutas.·Seguindo um pouco mais em frente, até ao termo da povoação, no caminho que vai para Pinheiros, poderá parar e apreciar a pequena Capela do Senhor do Calvário e um singelo nicho que se implanta no seu terreiro.
[2] Pinheiros - À direita, ao fundo da encosta declivosa, corre o Rio Tedo. Mas ameniza-se o aspecto agreste e granítico da paisagem à entrada de Pinheiros, cujo casario mais antigo se abriga num resguardo de montanha, voltado a sul. Na praça central, há um esguio cruzeiro. O adro da Igreja, mais adiante, rodeia-se de belas casas de cantaria. A própria Igreja Matriz é de boa cantaria. A data inscrita no pórtico principal - 1719 - lembra obras importantes de reedificação, talvez as da sineira lateral. O altar-mor, de talha barroca (séc. XVIII), guarda uma bela imagem de Nossa Senhora com o Menino, a quem oferecem cordões de oiro e outros ex-votos. O tecto da capela-mor apresenta 20 caixotões pintados com figuras de santos. Stª. Eufémia é a padroeira.Em Pinheiros há um santuário rupestre chamado Cabeço das Pombas, um afloramento granítico onde podemos encontrar inúmeras gravuras pré-históricas de conotação simbólico-religiosa. Em Carrazedo, podemos ver a Capela do Nosso Senhor do Calvário e um nicho com um Sr. dos Aflitos, pintado numa cruz de madeira.Todos os anos o povo de Carrazedo ali vai em festa e carrega a imagem em procissão por um caminho de 600 metros até ao coração da aldeia onde está a Igreja, que vale a pena visitar. No sítio da Torrinha, há ainda a Capela da Nossa Senhora da Conceição, cuja construção teve início em 1679.














