sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

JUSTIÇA A METRO, AOS BOCHECHOS, A CONTA-GOTAS





JUSTIÇA A METRO, AOS BOCHECHOS, A CONTA-GOTAS
(Velhas à moda da Terceira)

Esta tarde, em pleno Metro,
Li no jornal Metro o espectro
Da «justiça» em Portugal.
Em pouco mais de uma linha,
P’ra grande tristeza minha,
Diz Luciano Amaral[1]:
Qualquer partido político
Está sujeito a chantagem.
Acrescento eu ao crítico:
É fartar, ó vilanagem!

Tal chantagem vem de onde?
E Luciano responde:
Da imprensa e magistrados,
Dos arautos da verdade,
Da justiça, da equidade.
E nós leitores espantados.
Se a verdade e a justiça
Andam assim conluiadas
Apetece vê-las – chiça!
No banco dos réus sentadas.

Revelam coisas obscuras
Mesmo não sejam seguras
As fontes de informação.
Sem pudor, alto e bom som,
Distinguem-nos logo com
Medalha da corrupção.
Se o que ele diz é verdade,
E eu acredito que sim,
Penso eu, contra a vontade,
Que isto está mesmo ruim.

Se a justiça e a verdade
Mentem com tanto à-vontade,
O que se pode esperar
Dos bandidos, dos corruptos,
Gananciosos e brutos,
Que pensam só em roubar?
Vivem bem, à tripa forra,
Com total desfaçatez,
Sem que uma cachaporra
Lhes parta as costas, de vez.

Por isso intrigam, baixinho:
Se me fizeres um jeitinho,
Dar-te-ei um bom jarrão.
P’ra quê andar triste e nu,
Se posso encher o baú
E ganhar mais um milhão?
O pagode português
Julga-me herói, bestial,
Por eu sacar mais num mês
Que um juiz e um general.

Meu caro, viver não custa.
Só a honradez me assusta,
Nunca deu p’ra enriquecer.
Que fique a honra com os pobres,
Que eu cá prefiro uns bons cobres
E ver a conta crescer.
Não tenhas medo de nada!
As malhas da lei estão rotas,
A justiça está parada,
Só age a conta-gotas.

Mete lá a cunha, parceiro.
Não te faltará dinheiro,
Serás bem recompensado.
Avança, não tenhas medo.
Guardado está o segredo
Num cofre bem recheado.
Não há nada que me trave,
Comigo ninguém se meta!
Eu não paro. P’ra mim, grave
É não atingir a meta.

Se houver algum azar,
Quem me irá incomodar?
O dinheiro tapa tudo!
Tenho a rede bem montada,
A jigajoga oleada
E com rodas de veludo.
P’ra fugir ao prejuízo,
Seja na banca ou sucata,
O que importa é ter juízo,
Ter olho fino, ser rata,

Eu estou bem escudado!
Não fiques preocupado!
Avança, pois, bom amigo!
Toma lá um presentinho!
Só te peço um jeitinho
E deixa o resto comigo.
Basta uma palavrinha,
Basta-me um salvo-conduto.
A acção será toda minha.
Vai por mim, que não sou bruto.

A justiça? Esquece isso!
Quem a vê? Levou sumiço!
Caiu à rua, morreu.
Quem é que ainda acredita
Nessa coisa esquisita?
Não acreditas? Nem eu.
Ainda haverá alguém
Que tema os tribunais?
Não eu, por certo Ninguém,
Nem a Tê vê, nem jornais.

Hoje o grande tribunal
No reino de Portugal
Capaz de botar sentença
Mora na televisão
No café, junto ao balcão,
Ou sai das mãos da imprensa.
Ai do que for apanhado!
Vai ser tratado por urso,
Fica logo condenado…
E sem direito a recurso.

Quem é que ‘inda liga às leis?
Os decretos são papéis
Muito fáceis de rasgar!
A «justiça» é uma nojenta
Engrenagem ferrugenta.
Já não é capaz de andar.
Era cega, hoje é coxa,
Perdeu credibilidade,
A sua espada é tão frouxa!
Já não defende a verdade.

O mal já vem de raiz.
Vê tu só, hoje um juiz,
Parece um mixordeiro.
Não tem modos nem recato.
Discute num sindicato
Como qualquer calceteiro.
Faz do cargo profissão,
E já não consegue ver
Que tem por nobre missão
A Justiça defender.

Um delegado é parecido.
Em vez de ser comedido
No que faz e no que diz,
Pouco age, pouco escuta,
Entra na liça, na luta
Dos media, com o juiz.
Chega mesmo a parecer
Que travam luta de galos.
E quem os irá deter?
Alguém se atreve a calá-los?

Hoje, os senhores magistrados
São vulgares e descuidados
No vestir e no falar.
Gostam é de dar nas vistas,
Dar palpites, entrevistas,
Tudo menos trabalhar.
O que eles mais pretendem
São dois mesinhos de férias,
Só a si eles defendem
Com firmeza. O mais são lérias.


Órgãos de soberania
Portam-se, no dia-a-dia,
Eles que até ganham bem,
Como qualquer fraldiqueiro
Que só pensa em dinheiro,
Em prosápia, em vintém.
E são estes, ó parceiro,
Quem nos iriam julgar
Se eu não tivesse dinheiro
P’rá manigância tapar?

Claro que há excepções,
Quem não puxe pelos galões
Nem venha p’rá praça pública.
Há muitos que em bom recato
Julgam bem, têm bom trato,
Enobrecem a república.
Não te esqueças do chavão
Que todo o jurista emprega:
Não há regra sem excepção;
A excepção confirma a regra.

Mesmo esses tais, onde estão?
Pergunta-se a multidão
Ao sentir-se insegura,
Ao ver a justiça amada
Tão maltratada, arrastada
Pelas ruas da amargura.
E lá diz a velha praga:
O mal feito por um estupor
Quem o sofre? Quem o paga?
O justo pelo pecador.

Isto terá solução?
Desconfio bem que não.
Por isso, amigo, avance.
Actuemos, sem alarde,
Depressa, que se faz tarde.
Não há que temer, descanse.
E se houver algum azar,
Cá estou eu pró defender
Comigo pode contar
Para o que der e vier.

Por isso, compadre Chico,
Esperto é quem fica rico
Como eu, do pé p’rá mão.
Deixe ladrar os jornais,
Demorar os tribunais
P’ra gáudio da multidão.
A multidão aprecia
(como eu temo a multidão!)
Só quem lhe dá, dia-a-dia,
Circo, palhaços e pão.

E que se lixe o país!
Com dinheiro, é-se feliz
Aqui ou na Cochinchina.
Viva a santa corrupção
Que nos rende um dinheirão.
Mas que filão! Mas que mina!
Quero repartir consigo
Esta mina, este filão.
E seja, compadre amigo,
Tudo a bem da nação.

André Moa



[1] Luciano Amaral – Professor da Universidade Nova de Lisboa e autor do texto lido no jornal Metro. Rezam assim as partes do texto por mim utilizadas: «O sistema político português não vive os seus melhores dias. A afirmação não surpreenderá muita gente, mas talvez a gravidade da situação mereça ser sublinhada. Neste momento, não há nenhum partido político, excepto aqueles que nunca participaram no poder (o BE e o PCP), que não esteja sujeito à chantagem de magistrados e imprensa através da revelação de qualquer história obscura. De facto, BE e PCP, muito provavelmente apenas por não terem participado no poder (e penas por isso) ainda não foram distinguidos com a medalha da corrupção. O significado disto é evidente: a política está paralisada, o que se vê muito bem no caso deste Governo. Sem maioria absoluta, ameaçado pela revelação homeopática de sucessivos aspectos sórdidos dos «casos» Freeport e Face Oculta, pouco ou nada poderá governar. Historicamente, quando sucedia este tipo de paralisia, o regulador do sistema (para o mal e par o bem) era o Presidente. No entanto, o actual Presidente, depois da agora famosa e trágica alocução ao país, colocou-se numa posição particularmente difícil (quando tinha todas as condições para não o fazer)). Na semana passada, o Presidente Cavaco conseguiu o feito extraordinário de aparecer com uma cota de popularidade inferior à de um líder partidário…Se não tivesse desbaratado este capital, actuando de forma que deu a entender que poderia ser um destabilizador irresponsável do regime….Por agora, anda apenas a tentar salvar-se e esperemos eu não que não chegue a extremos para o fazer. A questão, para quem olha desconsolado para o espectáculo diante dos seus olhos, só pode ser uma: como sair daqui? Não está fácil. E, entretanto, poderá mesmo piorar.»
Entretanto, o Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (representante da suprema instância judicial, do supremo e último defensor da justiça, propalou, alto e bom som, que as coisas se estavam a passar aos bochechos, que as certidões sobre cuja legalidade e validade lhe cabe decidir, estão a ser remetidas a conta-gotas. Onde isto chegou! E, segundo Luciano Amaral, «poderá mesmo piorar».

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

JUSTIFICAÇÃO E GÉNESE DE UM PSEUDÓNIMO

A bailarina Laura na Fonte da Moa
foto de Osvaldo Ribeiro



JUSTIFICAÇÃO E GÉNESE DE UM PSEUDÓNIMO*


Chamo-me André Moa. Sou o alter-ego do José Guilherme Macedo Fernandes, um cidadão do mundo, nascido em Tabuaço, Alto-Douro, Portugal. Um cidadão do mundo, sem dúvida, mas com as raízes bem firmadas no torrão que lhe deu vida. Tabuaço é o centro do seu e do meu mundo, feito de vários círculos concêntricos. As nossas grandes referências foram e continuarão a ser, para todo o sempre, a região do Douro Vinhateiro e, muito em especial, o Concelho e a Vila de Tabuaço.
O José Guilherme cedo sentiu um forte apelo para adoptar um pseudónimo literário. Ensaiou vários, antes de me escolher a mim. Desejou sempre que tivesse a ver com a sua região, com as suas origens. Chegou a pensar em José Riba-Douro. Pô-lo de parte, por o considerar algo aristocrático, pomposo de mais para o seu gosto e para a sua maneira de ser e de estar na vida. E que tal José Rabelo? Demasiado circunscrito, algo fechado, pouco musical, sendo certo que a música para o José Guilherme é a arte por excelência, até por à música se encontrar muito irmanada a poesia. Por que não José Távora? Távora, o rio que banha os pés de Tabuaço e que o José Guilherme muito calcorreou na infância e na juventude. Távora, freguesia, a terra natal do seu avô paterno. Seria interessante, não fora a imediata conotação com os Távoras, os senhores e donos de meio Portugal, até serem dizimados pelo Marquês de Pombal.
Eis senão quando lhe surge a ideia de me formar, de constituir o pretendido pseudónimo, a partir da palavra Moa. Ribeiro da Moa, nome do riacho e do vale contíguo à vila de Tabuaço, hoje urbanizado, constituindo parte integrante do povoado que por ali pôde e deu em expandir-se. Ribeiro da Moa que tanto povoou a sua infância e o seu imaginário. A tendência hoje vai no sentido de se falar na Moa e já não no Ribeiro da Moa. É natural. O asfalto transformou o caminho do Ribeiro da Moa numa avenida. O casario cada vez mais esconde aquele estreito curso de água. O bulício próprio de uma zona urbanizada, percorrida de automóvel e cada vez menos a pé ou a cavalo como outrora, abafa o doce cantar das águas do manso ribeiro que por não ser tão visível e audível vai sendo cada vez menos lembrado. José Guilherme e, por certo, todos os da sua geração, não o olvidarão nunca, Foi no tanque do Ribeiro da Moa que sua mãe e muitas outras mães lavaram, coraram e secaram os cueiros dos seus filhotes.

Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãe te abençoa.
Foi lavar os cueirinhos
Lá pró Ribeiro da Moa.

No Ribeiro da Moa apanhou o José Guilherme muita chuva, muito sol, muitos figos, muitas uvas, muitas ameixas e nabos, espalhou muito estrume, rapou e abriu muitos regos, semeou (dizia-se semear em vez de plantar), esterroou, sachou, regou muitas batatas. E mondou trigo. E tratou do cebolo e dos feijões. E da vinha. E dormiu muitas noites de Verão numa casinha de arrumações, para virar a água, por volta das quatro da manhã, para o tanque do prédio que seus pais traziam de meias. E bebeu muita água do caleiro que deitava para o tanque onde as mulheres lavavam o enxoval, constituído pelos trapinhos com que cada família ia tapando o corpinho e encobrindo as “misérias”. E tudo isto dos cinco aos doze anos. Depois “fugiu”. Tornou-se fidalgo. Fidalgo, mas nunca fidalgote. Foi estudar. Só que nunca renegou, antes sempre engrandeceu e acalentou um grande amor pelas suas raízes a que ainda hoje procura ser fiel e reconhecido.
No Ribeiro da Moa cresceu, se formou, física e psicologicamente. Assim se compreenderá a sua ligação telúrica com Tabuaço, nomeadamente com esse rincão, esse pedaço de verde cuja designação lhe foi emprestada pelo ribeiro que o banha, o atravessa e lhe dá a frescura e o viço.
Ribeiro da Moa. Da Moa, porquê?
O ribeiro corre, canta, sente-se, ouve-se, frui-se, dessedenta campos, animais e gentes. Desconheço, sim, o porquê da Moa. Quando não se sabe, inventa-se. Da moa. Alguma moura (moura – moabita – moa) que por ali andou, viveu, penou sofreu de amores por algum cristão – qual outra Adringa – e que por isso viu derramado o seu arábico sangue no ribeiro que por ali passa desde o dealbar dos tempos?
O que nos dizem os dicionários? Do Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo colhe-se apenas isto: “Moa (ô) s. m. Zool. Pássaro gigante da Nova Zelândia”. Não é crível que um destes pássaros dos antípodas tenha trespassado o mundo ou sobrevoado tantos céus até pousar e fazer ninho naquele pequeno se bem que paradisíaco recanto e assim baptizar o ribeiro da moa. Acresce que o moa pássaro é masculino e a moa do nossos ribeiro é feminina. No Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado – Sociedade de Língua Portuguesa – para lá do Moa1 (o tal pássaro gigante) encontra-se “Moa2, s. f. Bot. Erva de pastagens, originária da Hungria//o mesmo que milho painço, nome vulgar de erva anual da família das gramíneas. É originário da Ásia e cultivado em Portugal, principalmente no Norte”. Teríamos, então, o Ribeiro da (erva) Moa, a tal gramínea também conhecida por milho painço. Parece-me razoável.
Quer uma quer outra proveniência nos agradam. A mim, André Moa, e ao José Guilherme que, por tudo isto que aqui fica dito, me criou. Em mim se fundem e confundem os dois sentidos de moa. O masculino e o feminino, o x e o y, o ser humano no seu pleno, a humildade do milho painço e a altanaria da ave sedenta de inatingíveis altos e sonhados céus.

André Moa

* Aos meus amigos, a todos os visitantes deste blogue, muito em especial aos que participaram no passeio de meados de Setembro passado por terras de Tabuaço e já provaram da deliciosa água da Fonte da Moa.

sábado, 31 de Outubro de 2009

AS VELHAS - GUERRAS DO CAVACO E DA LAGOSTA





























Caríssimas, caríssimos,

Desculpem introduzir na "dança" - que tenho preparado, seguido e mantido com muito interesse, agrado e atenção, qual tia sentada à volta do salão onde decorre o bailarico, a função - a brejeirice que se segue.
Servirá para desanuviar um pouco o ambiente carregado de dor, amor, sabença e profundidade, e para desta forma singela prestar a minha homenagem aos ilustres visitantes do meu blogue, que fazem o favor de, para além de aturarem as minhas diatribes, ser meus amigos. As velhas são uma moda da Ilha Terceira. Brejeira, atrevida, picante quanto baste, é geralmente cantada ao desafio nos arraiais, onde de forma engraçada, se vão cantando as agruras e as alegrias da vida.
Um abraço para todos.
P.S. O cavaco é um marisco (o grande dicionário da língua portuguesa apresenta-o como «peixe do mar dos Açores», primo afastado da lagosta, meio adocicado, sensaborão, apanhado com frequência no mar dos Açores. Há quem goste: Eu prefiro, de longe, a lagosta. Só que esta é muito mais cara. Por isso, à falta de melhor, lá se vai trincando o cavaquinho de vez em quando. Que remédio!

AS VELHAS

GUERRAS DO CAVACO E DA LAGOSTA
(à moda da Terceira)


Há um marisco no mar
Que só serve para enganar
Os incautos e glutões.
Há quem diga que até gosta
Mais dele que de lagosta,
Mas nada de confusões.
Só quem tem gosto estragado
Ou quem delire de febre
Se sentirá confortado
A comer gato por lebre.

Agridoce, meio insonso,
Cara de pau, olhar sonso,
Quem havera de dizer
Que viria a ser proposto
Como prato de bom gosto
Para em Belém se comer.
A quem aprecia e gosta
De produtos a pataco
Direi que meia lagosta
Vale mais que um cavaco.

Baço, obscuro, opaco,
Foi sempre assim o cavaco,
Marisco sensaborão.
Quando se sente acossado
Tenta passar disfarçado
Ou se arma em sabichão.
Petulante, sem estofo,
Um convencido de truz.
De pensamento balofo,
Mestre em criar tabus.

O cavaco, vejam bem,
Deu em pensar que em Belém
Tinham montado um radar.

Ficou cheiinho de medo
Que escutem algum segredo
Que não queira revelar.
Eriçado, entrou logo,
Contra todos em disputa
E a largar forte fogo
Contra os filhos da escuta.

A lagosta, avermelhada,
Afirmou não haver nada
Mas sempre lhas foi cantando:
Cavaco, toma juízo
Senão - sou eu que te aviso -
És cozido em lume brando.
Cavaco baixou a crista,
Acabou por afirmar
Que a lagosta sacrista
Voltasse a governar.

E ela vai governar,
Já se habituou a mandar
Seja nos ares, seja em terra.
No mar então nem se fala!
Se quiserem apanhá-la,
Vão ter luta, vão ter guerra
Do alecrim, da manjerona,
Do cão, do gato e do rato,
Guerra da uva mijona
Que se vende ao desbarato.

Meus senhores, dêem-se bem!
Cavaco, vá para Belém,
Onde é apreciado!
Lagosta, vá para São Bento
Que é santo de sustento
E de gosto requintado!
Se cada um no seu posto
Não cuidar da sua vida,
Ou o cavaco é deposto
Ou a lagosta é comida.

FIM

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

REFLEXOS





Barco Rabelo reflectido nas águas espelhadas do Douro
Foto de Osvaldo Ribeiro


1

BARCO RABELO

Meu barco
Meu berço
Meu sonho
Meu norte
Meu rumo
Meu ser
Minha alcova e rota
Mapa de brincar
Devaneio e meta
Atracção e fuga
Encanto e fúria
Pesar e miragem
Meu sol e luar
Espelho
Imagem
Do mundo por vir
Do mundo a achar

Meu barco rabelo
No teu balançar
Deixa-me dormir
Deixa-me sonhar
Quero reflectir
Quero recordar
e reencontrar
em ti a criança
embalada
no teu balançar
para ser levada
Quando já crescida
No bojo da esperança
Para o mar da vida



Imitação de um painel


Ideia e foto de Osvaldo Ribeiro

2

Movimento reflexo

Eis que dou por mim - reflectido no espelho estilhaçado do íntimo do ser - a reflectir sobre a capacidade de amar do poeta que tudo abarca, que a todos acolhe no seu infinito e insaciável amplexo amoroso. O poeta ama, ama sempre, como proclamou Florbela Espanca, perdidamente, este, aquele e o outro, toda a gente…
Sina de poeta!
Mas…Será possível? É aqui, perante esta pertinente questão, que se fixa a minha reflexão.
Que pensar?
Apenas isto: Que
O poeta é um sonhador.
Sonha tão completamente,
Que chega a sentir amor
Amor para toda a gente.

Plagiando ainda mais de perto o poeta dos poetas, Fernando Pessoa, o criador de sonhos por excelência, poderá dizer-se que

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir” amor
Amor que “deveras sente”.

O poeta quando ama – o poeta ama sempre – ama em cada ser o ideal que o povoa. O poeta voa, voa, sempre em busca do seu Graal, do seu ideal. Onde poisa o olhar, aí erege um pedestal para nele implantar a coisa ou pessoa amada, aquela que, naquele momento, encarna o seu ideal.
O poeta quer a todos por igual, ama a todos com igual intensidade e ardor.
O poeta vê em tudo e em todos o seu ideal.
O poeta nunca esquece quem amou. O poeta nunca olvida o seu ideal.
O poeta é capaz de amar, ao mesmo tempo e com igual intensidade, este, aquele, todos, toda a gente, a pessoa em que o poeta vislumbra o seu ideal. Se é bela ou feia a pessoa amada, isso é de somenos. Aos olhos do poeta será sempre, sempre bela, pois que o seu rosto será sempre o rosto simaginado, o rosto do seu ideal.
O ideal do poeta é incomensurável. Nenhuma mulher, ou homem, coisa ou pessoa, o preenche. Daí a propensão (ou necessidade?) do poeta para amar, simultaneamente, com a mesma exaltação, inquietude e intensidade, tudo e todos.
O poeta é o amante ideal, o amante ardente e volúvel, o amante pouco recomendável, o amante de amores arrebatados, de amores eternos, enquanto duram.

André Moa

sábado, 24 de Outubro de 2009

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

HAJA SAÚDE








Fonte da Moa – foto Osvaldo Ribeiro


HAJA SAÚDE

- Haja saúde! - Assim se saúdam os amigos.
- Haja saúde… - vociferam os quase inimigos, ao virarem-nos as costas, antes que lhes salte a tampa e cheguem a vias de facto, com a raiva mal contida a espumar-lhes nos cantos da boca.
- Haja saúde e coza o forno – pronunciam a torto e a direito os bem-aventurados pobres de espírito.
- Haja saúde e merda, que deus não pode dar tudo – digo eu com muita frequência. Esta fase vem-me, por certo, dos longínquos Idos em que passei pela tropa, pois que é nitidamente de caserna este linguajar, onde perdi a ingenuidade do coração e a virgindade da linguagem. Até então eu nem merda dizia. Agora, tresando. Não paro de me desfazer em trampa.
Vem este arrazoado todo e tão mal cheiroso a despropósito dos últimos meses em que andei constantemente com o credo na boca. E continuo, já que o antigénio carcinoembrionário (CEA) teima em galopar e os nódulos nos pulmões insistem em aumentar.
Significa isto que o raio do cancro teima em corroer-me no silêncio das interioridades. Mas enganou-se na porta, no corpo em que se alojou. Mal ele sabe com que besta se meteu. Se ele é persistente, eu sou dos casmurros que lutam até à exaustão. Esqueceu-se de que sou natural de Tabuaço. Pode roer-me a tábua mas vai partir os dentes, gemer e recuar irremediavelmente quando chegar ao aço, conforme, muito sabiamente, alvitra o meu irmão.
Assim sendo, estou convicto de que vou continuar a beber, durante muitos e bons anos, da bendita água da Fonte da Moa.
Lisboa, 2009-10-23
André Moa

domingo, 18 de Outubro de 2009

A PROPÓSITO DO DESPROPÓSITO DE MAITÉ PROENÇA

O mal foi sair à rua,
vestidinha, em Lisboa;
quando ela apenas nua
e muda seria boa.

Abriu a boca, cuspiu...
quebrou-se-lhe o pedestal.
Sabem que mais? ...Que a pariu!
Que não volte a Portugal.


Escrevi, está escrevido.
E se o não tivesse escrito?
Rebentava de raiva.
Até porque cheguei a ser fã dela,
mesmo vestida.

Abreijos
André Moa