


(Velhas à moda da Terceira)
Esta tarde, em pleno Metro,
Li no jornal Metro o espectro
Da «justiça» em Portugal.
Em pouco mais de uma linha,
P’ra grande tristeza minha,
Diz Luciano Amaral[1]:
Qualquer partido político
Está sujeito a chantagem.
Acrescento eu ao crítico:
É fartar, ó vilanagem!
Tal chantagem vem de onde?
E Luciano responde:
Da imprensa e magistrados,
Dos arautos da verdade,
Da justiça, da equidade.
E nós leitores espantados.
Se a verdade e a justiça
Andam assim conluiadas
Apetece vê-las – chiça!
No banco dos réus sentadas.
Revelam coisas obscuras
Mesmo não sejam seguras
As fontes de informação.
Sem pudor, alto e bom som,
Distinguem-nos logo com
Medalha da corrupção.
Se o que ele diz é verdade,
E eu acredito que sim,
Penso eu, contra a vontade,
Que isto está mesmo ruim.
Se a justiça e a verdade
Mentem com tanto à-vontade,
O que se pode esperar
Dos bandidos, dos corruptos,
Gananciosos e brutos,
Que pensam só em roubar?
Vivem bem, à tripa forra,
Com total desfaçatez,
Sem que uma cachaporra
Lhes parta as costas, de vez.
Por isso intrigam, baixinho:
Se me fizeres um jeitinho,
Dar-te-ei um bom jarrão.
P’ra quê andar triste e nu,
Se posso encher o baú
E ganhar mais um milhão?
O pagode português
Julga-me herói, bestial,
Por eu sacar mais num mês
Que um juiz e um general.
Meu caro, viver não custa.
Só a honradez me assusta,
Nunca deu p’ra enriquecer.
Que fique a honra com os pobres,
Que eu cá prefiro uns bons cobres
E ver a conta crescer.
Não tenhas medo de nada!
As malhas da lei estão rotas,
A justiça está parada,
Só age a conta-gotas.
Mete lá a cunha, parceiro.
Não te faltará dinheiro,
Serás bem recompensado.
Avança, não tenhas medo.
Guardado está o segredo
Num cofre bem recheado.
Não há nada que me trave,
Comigo ninguém se meta!
Eu não paro. P’ra mim, grave
É não atingir a meta.
Se houver algum azar,
Quem me irá incomodar?
O dinheiro tapa tudo!
Tenho a rede bem montada,
A jigajoga oleada
E com rodas de veludo.
P’ra fugir ao prejuízo,
Seja na banca ou sucata,
O que importa é ter juízo,
Ter olho fino, ser rata,
Eu estou bem escudado!
Não fiques preocupado!
Avança, pois, bom amigo!
Toma lá um presentinho!
Só te peço um jeitinho
E deixa o resto comigo.
Basta uma palavrinha,
Basta-me um salvo-conduto.
A acção será toda minha.
Vai por mim, que não sou bruto.
A justiça? Esquece isso!
Quem a vê? Levou sumiço!
Caiu à rua, morreu.
Quem é que ainda acredita
Nessa coisa esquisita?
Não acreditas? Nem eu.
Ainda haverá alguém
Que tema os tribunais?
Não eu, por certo Ninguém,
Nem a Tê vê, nem jornais.
Hoje o grande tribunal
No reino de Portugal
Capaz de botar sentença
Mora na televisão
No café, junto ao balcão,
Ou sai das mãos da imprensa.
Ai do que for apanhado!
Vai ser tratado por urso,
Fica logo condenado…
E sem direito a recurso.
Quem é que ‘inda liga às leis?
Os decretos são papéis
Muito fáceis de rasgar!
A «justiça» é uma nojenta
Engrenagem ferrugenta.
Já não é capaz de andar.
Era cega, hoje é coxa,
Perdeu credibilidade,
A sua espada é tão frouxa!
Já não defende a verdade.
O mal já vem de raiz.
Vê tu só, hoje um juiz,
Parece um mixordeiro.
Não tem modos nem recato.
Discute num sindicato
Como qualquer calceteiro.
Faz do cargo profissão,
E já não consegue ver
Que tem por nobre missão
A Justiça defender.
Um delegado é parecido.
Em vez de ser comedido
No que faz e no que diz,
Pouco age, pouco escuta,
Entra na liça, na luta
Dos media, com o juiz.
Chega mesmo a parecer
Que travam luta de galos.
E quem os irá deter?
Alguém se atreve a calá-los?
Hoje, os senhores magistrados
São vulgares e descuidados
No vestir e no falar.
Gostam é de dar nas vistas,
Dar palpites, entrevistas,
Tudo menos trabalhar.
O que eles mais pretendem
São dois mesinhos de férias,
Só a si eles defendem
Com firmeza. O mais são lérias.
Órgãos de soberania
Portam-se, no dia-a-dia,
Eles que até ganham bem,
Como qualquer fraldiqueiro
Que só pensa em dinheiro,
Em prosápia, em vintém.
E são estes, ó parceiro,
Quem nos iriam julgar
Se eu não tivesse dinheiro
P’rá manigância tapar?
Claro que há excepções,
Quem não puxe pelos galões
Nem venha p’rá praça pública.
Há muitos que em bom recato
Julgam bem, têm bom trato,
Enobrecem a república.
Não te esqueças do chavão
Que todo o jurista emprega:
Não há regra sem excepção;
A excepção confirma a regra.
Mesmo esses tais, onde estão?
Pergunta-se a multidão
Ao sentir-se insegura,
Ao ver a justiça amada
Tão maltratada, arrastada
Pelas ruas da amargura.
E lá diz a velha praga:
O mal feito por um estupor
Quem o sofre? Quem o paga?
O justo pelo pecador.
Isto terá solução?
Desconfio bem que não.
Por isso, amigo, avance.
Actuemos, sem alarde,
Depressa, que se faz tarde.
Não há que temer, descanse.
E se houver algum azar,
Cá estou eu pró defender
Comigo pode contar
Para o que der e vier.
Por isso, compadre Chico,
Esperto é quem fica rico
Como eu, do pé p’rá mão.
Deixe ladrar os jornais,
Demorar os tribunais
P’ra gáudio da multidão.
A multidão aprecia
(como eu temo a multidão!)
Só quem lhe dá, dia-a-dia,
Circo, palhaços e pão.
E que se lixe o país!
Com dinheiro, é-se feliz
Aqui ou na Cochinchina.
Viva a santa corrupção
Que nos rende um dinheirão.
Mas que filão! Mas que mina!
Quero repartir consigo
Esta mina, este filão.
E seja, compadre amigo,
Tudo a bem da nação.
André Moa
[1] Luciano Amaral – Professor da Universidade Nova de Lisboa e autor do texto lido no jornal Metro. Rezam assim as partes do texto por mim utilizadas: «O sistema político português não vive os seus melhores dias. A afirmação não surpreenderá muita gente, mas talvez a gravidade da situação mereça ser sublinhada. Neste momento, não há nenhum partido político, excepto aqueles que nunca participaram no poder (o BE e o PCP), que não esteja sujeito à chantagem de magistrados e imprensa através da revelação de qualquer história obscura. De facto, BE e PCP, muito provavelmente apenas por não terem participado no poder (e penas por isso) ainda não foram distinguidos com a medalha da corrupção. O significado disto é evidente: a política está paralisada, o que se vê muito bem no caso deste Governo. Sem maioria absoluta, ameaçado pela revelação homeopática de sucessivos aspectos sórdidos dos «casos» Freeport e Face Oculta, pouco ou nada poderá governar. Historicamente, quando sucedia este tipo de paralisia, o regulador do sistema (para o mal e par o bem) era o Presidente. No entanto, o actual Presidente, depois da agora famosa e trágica alocução ao país, colocou-se numa posição particularmente difícil (quando tinha todas as condições para não o fazer)). Na semana passada, o Presidente Cavaco conseguiu o feito extraordinário de aparecer com uma cota de popularidade inferior à de um líder partidário…Se não tivesse desbaratado este capital, actuando de forma que deu a entender que poderia ser um destabilizador irresponsável do regime….Por agora, anda apenas a tentar salvar-se e esperemos eu não que não chegue a extremos para o fazer. A questão, para quem olha desconsolado para o espectáculo diante dos seus olhos, só pode ser uma: como sair daqui? Não está fácil. E, entretanto, poderá mesmo piorar.»
Entretanto, o Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (representante da suprema instância judicial, do supremo e último defensor da justiça, propalou, alto e bom som, que as coisas se estavam a passar aos bochechos, que as certidões sobre cuja legalidade e validade lhe cabe decidir, estão a ser remetidas a conta-gotas. Onde isto chegou! E, segundo Luciano Amaral, «poderá mesmo piorar».





