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sábado, 14 de março de 2009


Caros amigos, a vaidade, por vezes comanda-nos. É o que me está a acontecer, ao não resistir postar aqui um texto que me é dedicado e foi publicado em “A VOZ DE TABUAÇO”, mensário da minha terra natal, de que ambos (eu e a Aida Baptista) somos assíduos colaboradores; seguido da minha resposta.

LARVA LAMBAREIRA

Sardoal, 11 de Fevereiro de 2009


Meu querido José Guilherme

Perdoa-me se torno públicos um conjunto de assuntos de carácter mais privado, sem sequer te pedir licença. Os tempos andam um pouco arredios dos bons costumes que, antigamente, eram punidos com o mais sincero pedido de desculpas. Ainda hesitei, mas, depois de te começar a ler, e constatar que tinhas já exposto aos olhos de todos as tuas partes mais íntimas, concluí que afinal não seria tão grave assim revelar emoções e sentimentos que correm por canais a céu aberto da amizade mais pura.
A última vez que te vi foi no lançamento do teu Tabuaço Dour(o)ado -Cantata a dois, que escreveste em parceria com o teu conterrâneo (também ele poeta) Ernesto Leandro. Serviu de intermediário, a este encontro, o nosso amigo comum -Gustavo de Almeida - que se encarregou de, por via electrónica, fazer a devassa da vida literária dos tabuacenses, na capital. Foram curtos momentos de conversa porque, nestes eventos, vem sendo hábito atrasar-se tudo um pouco e eu não pude estar até ao final. Ficou o sabor efémero de um autógrafo à pressa e um abraço de despedida. Sabia já da tua doença, mas naquele dia não quis sequer falar-te dela. Há momentos de exaltação da vida, como é o caso de cada livro que nasce, que apenas devem ser preenchidos com a alegria dos amigos, sem descambarem na comiseração lamecha. Entretanto, enviaste-me o teu primeiro esboço de diário. Agradeci-te a coragem de quereres partilhar a tua privacidade com terceiros e senti-me honrada por ter o privilégio de pertencer ao grupo dos que elegeste como amigos.
Prometi-te lê-lo, é verdade! Mas não cumpri a palavra dada, confesso. Não vou enumerar o rol de desculpas que poderia dar, porque nenhuma delas é desculpável. É urgente arranjar tempo para os amigos – decretei-o esta semana, depois de ter recebido esta tua última mensagem, que veio interromper meses de silêncios. E dizias tu: “Peço desculpa pela «invasão», mas não resisti à tentação de dar notícia deste livro (...) que escrevi durante o largo período em que tratei de um cancro no recto. Porque, julgo, abordei o assunto com muito optimismo, confiança, abertura de espírito e, sempre que possível, com boa disposição, atrevo-me a julgá-lo capaz de ajudar outros a suportar as agruras da vida. Por isso, acabo de o editar no blogue – http://diariodeumpaciente.blogspot.com/ - que já recebeu perto de sete mil visitas. (...) Há perto de um ano que ando a lutar contra um novo cancro ora alojado nos pulmões. (...) Anexo o livro na íntegra que inclui três textos, «três leituras em jeito de prefácio» de Onésimo Teotónio de Almeida, Olegário Paz e António Fernandes. Se não se dispuser ou não puder ler, para já, o livro na íntegra, recomendo vivamente que não deixe de ler estes três textos, nomeadamente o do Onésimo – CAC(A)FONIA EM DÓI MENOR – e o de Olegário Paz – NOTAS DE LEITURA – por serem dignos de realce, (...) até pela forma original, profunda, irónica e séria como abordaram o livro (...).
Um abraço
José Guilherme Macedo Fernandes (André Moa)

Acabava de chegar de Coimbra, aonde tinha ido a uma consulta com o meu marido, quando li esta mensagem e, apesar de cansada, decidi cortar com o mutismo que durava há muito. Escrevi na resposta imediata: “todas as noites me deito com uma dívida para contigo». É verdade, meu amigo, não se trata de pura retórica. E esta dívida andava a pesar-me, a aumentar de tamanho como a tua próstata, e a pressionar o tecido da minha consciência, tal era o volume dos juros acumulados. Por isso, conforme te prometi, meti as cento e cinquenta e nove páginas de texto na “pen” e, ontem mesmo, dirigi-me a uma gráfica que o imprimiu e encadernou. À noite, deitei-me com a mesma dívida, mas, quando desliguei a luz, tinha já abatido oitenta e três páginas na coluna dos débitos. Tivesse eu o dom do Onésimo Teotónio de Almeida, e teria apagado de uma só vez a coluna por inteiro e ainda feito o balanço geral das contas, que o mesmo será dizer: ler o livro e fazer um prefácio de um dia para o outro, como atestam as datas de 19 e 20 de Janeiro do texto dele. Mas, em comum, eu e o Onésimo temos apenas duas coisas que ninguém nos pode tirar: o mesmo signo (ambos sagitarianos) e o mesmo dia de aniversário (18 de Dezembro). Quanto ao resto, manda a modéstia que me remeta ao meu humilde lugar. E se um dia ele vier a ler isto (porque ao Onésimo nada escapa), escusa de vir para cá com um “caveat” ao leitor, a invocar delírios meus, porque, que eu saiba, estou sã que nem um pêro. E esta última foi dita muito baixinho - o mal de inveja anda por muito lado à solta - não vá o bicho da doença atirar-se a mim, em breve.
A tua resposta chegou rápida, na manhã do dia seguinte. E, desde então, temos comunicado todos os dias. Esta noite, tenciono amortizar o montante que me falta, mas a metade que já li corrobora tudo quanto os dois autores que recomendas escreveram. A tua coragem vai muito para além da de outros que sobre a doença escreveram. Nisso, concordo com o Onésimo. E, ao contrário, do José Rodrigues Miguéis, tu não sorris à Morte com meia-cara, pois não és homem para te ficares a meio de nada. Tu olhas a morte com a cara toda, olhos nos olhos, de frente para a vida, e soltas a gargalhada com que desferes a estocada final. Ninguém, nem mesmo ela, resiste a uma gargalhada tua que estilhaça a dor e a transforma em sorrisos cristalinos que desenhas na boca do neto lindo que te alimenta a vida.
Quando tudo terminar e no posfácio do livro lavrares a tua merecida vitória sobre a doença, sentir-te-ás como a fruta que descreves na pág. 31: “Que saudades de comer fruta bichada! Perde-se o bocado que a lagarta chamou seu e dele se apropriou, mas o restante é do melhor (...).
A lagarta bem pode andar por aí a tentar “cu-roer-te” mais qualquer coisa, mas a tua fome – Esta minha inveterada fome de viver (Inevitavelmente, pág. 25) – há-de ser sempre muito maior do que a de uma larva lambareira.
Tua amiga, sempre
Aida



ENTRE MARGENS DE AFECTOS

(Cópia de um e-mail enviado à minha querida amiga Aida Baptista)
(Hoje, dia 12 de Março de 2009)


Queridíssima amiga Aida Baptista,

Ainda meio aturdido com tudo o que de lindo e comovente se passou na Fundação Pro Dignitate, com o lançamento do livro – ENTRE MARGENS DE AFECTOS - eis que hoje, ao começo da tarde, quando regressava da "sala de chuto" do Hospital onde fui apanhar a costumada dose das quintas-feiras de anticorpos e anti-anticorpos, retiro da caixa do correio o jornal a Voz de Tabuaço e sou surpreendido com o teu belíssimo e inesperado texto - LARVA LAMBAREIRA - com que me quiseste brindar, com ele cimentar indelevelmente a nossa amizade cada vez mais sincera e profunda, e cuja leitura me emocionou até às lágrimas.
Ao fim da tarde do passado dia 10, em pleno lançamento do livro, ocorreu-me a ideia, (peregrina, pensava eu) de escrever um texto sobre o evento. Hoje, que recebi o jornal e te li, fiquei sem jeito, por pensar que os leitores pudessem interpretar o meu gesto como mero agradecimento, como mera troca de mimos e galhardetes, e não como manifestação espontânea e sincera do muito de bom que ali se passou e muito me sensibilizou e enriqueceu.
"Estragaste" tudo, querida Aida. Derribaste o meu intento, deitaste por água abaixo o meu plano. Vale é que os leitores não vão ficar defraudados, bem pelo contrário, pois que, na assistência encontrava-se igualmente o nosso comum amigo – Gustavo Almeida - e ele não vai, estou convencido, deixar de reportar o acontecimento na Voz de Tabuaço, com a sua costumada mestria.
Já li uma boa parte do livro. Estou a gostar muito. Que de afectos! Que sensibilidade! Que bons nacos de prosa! Que arte de escrita! Que regalo ler-te (ler-vos), cara amiga!
Pela amizade que nos une e pela boa intenção com que "infringiste" as regras de velhos e se calhar obsoletos bons costumes, estás "perdoada" quanto à falta de licença prévia, falta, aliás, em que incorreste duas vezes consecutivas, o que te torna reincidente. Primeiro foi aquela citação de três versos meus no início do vosso livro tão recheado de afectos e me chegou de supetão. Não tivesse eu bom coração, e bem poderia ter-me dado o badagaio. Agora já conheço a razão da minha sobrevivência a tantas e tão fortes emoções. Como referes no teu lindo texto "A LINHA DO TRÓPICO", «o coração é o único órgão que não se deixa atacar pelo cancro, porque ele é o símbolo do amor verdadeiro e da amizade sem reservas. É por isso que as garras do caranguejo cedem perante os sentimentos mais nobres, transformando-se em tenazes protectoras». Estou safo.
Agora foi esta inesperada crónica que só não me fez tombar para o lado, sei agora, graças a ti, porquê.
Não, não foi grave revelares emoções e sentimentos que eu não escondo, antes decidi fazer correr " por canais a céu aberto de amizade mais pura", como bem escreveste.
Não foi nada grave. Foi, sim, emocionante e reconfortante. Muito emocionante e reconfortante.
Como "castigo" (agora que os leitores já ficaram avisados e aptos a compreender e a aceitar a minha posição um tanto embaraçosa, mas clara, limpa, recta e justa) vou transformar este e-mail no meu Palanfrório para o próximo número do "Voz de Tabuaço". Eu não pedi nem peço licença, mas aqui fica o aviso. Eu avisei! Se calhar, porque não tenho nenhuma surpresa agradável a oferecer, se calhar, porque mais velho, um tanto obsoleto, mais preso aos revelhos costumes sobre que não vou aqui e agora discernir se são bons ou maus. Interessam-me mais os fins, os objectivos, os resultados dos actos do que os princípios que os possam inspirar e controlar.
Tenho pena, mas não poderei comparecer no novo lançamento, desta feita (depois de Viseu e Lisboa) na cidade invicta, no Clube Literário do Porto. Porque, sabes, a lagarta teima em «cu-roer-me» e não me permite sair de casa por muito tempo e com a necessária descontracção. Como tu vaticinas e eu desejo manter, esta minha inveterada fome de viver «há-de ser sempre muito maior do que a de uma larva lambareira», mas a verdade é que ainda passo por algumas limitações e há que dar tempo ao tempo e tempo aos tratamentos, antes que possa saborear, em plenitude, o bocado que restar, o melhor bocado.

Um grande beijo, minha amiga de sempre e para sempre.

José Guilherme

9 Comentários:

  • Às 15 de março de 2009 às 22:44 , Blogger Brancamar disse...

    Olá André,

    Parece que finalmente vou conseguir escrever, já que ontem e hoje tenho vindo aqui e os comentários não me abrem e encravam-me o sistema, tendo que desligar tudo.
    Bem, mas o que importa é que estes dois textos me deliciaram, o da sua amiga e o seu e-mail/resposta, pura literatura e da boa. Gostei da metáfora da larva lambareira e já encaminhei o correio que me enviou para os meus contactos, sobretudo os que pela distância terão mais acesso ao Clube Literário do Porto, mas também a outros. Eu estou a uma curta distância e este clube é-me mesmo muito familiar, recebo a sua programação todos os meses.
    Corroboro o que diz a sua amiga e conterrânea e não resisto a copiar para aqui esta frase que saliento:
    "Tu olhas a morte com a cara toda, olhos nos olhos, de frente para a vida, e soltas a gargalhada com que desferes a estocada final. Ninguém, nem mesmo ela, resiste a uma gargalhada tua que estilhaça a dor e a transforma em sorrisos cristalinos que desenhas na boca do neto lindo que te alimenta a vida."
    Trouxe na minha memória, quando o conheci em Lisboa, no final da missa de corpo presente do nosso querido Salvador esta imagem que aqui é transmitida pela Aida. Já sabia pelos seus textos, mas não esqueci mais o sorriso que me acompanhou até à estação, a força de viver que transparece no entusiasmo com que fala e nos olha, a impressionante alegria com que apesar de tudo parece encarar a vida.
    Nâo esqueci mais.
    Um grande abraço para si.
    Branca

     
  • Às 17 de março de 2009 às 13:54 , Blogger jorge henriques disse...

    Olá André ,demorou mas cá cheguei só ontem li o correio electrónico e fiquei com chave desta porta hehe.
    Estou á espera da noticia da publicaçâo do livro ,já tem alguma noticia de editoras ?
    Como sempre é um gosto deliciar-me com a sua escrita foram um alento em alguns momentos dificeis porque passei neste meu passado recente ,espero que desse lado as coisas estejam a correr bem é claro que nem dúvido da vitória final com um guerreiro dessa tempera .
    abraço
    jorge

     
  • Às 21 de março de 2009 às 22:39 , Blogger Linda disse...

    Olá André, como o mundo é pequeno!
    Recebi o mail da Branca a comunicar o lançamento do "ENTRE MARGENS DE AFECTOS" e fiquei com pena de não poder ir.
    Estava eu a falar com a minha colega de trabalho, quando ela me diz que tinha ido ao lançamento de um livro escrito pela prima,não é que a prima é a Aida Baptista?
    Espero que se encontre bem... eu vou ler o livro! Estou à espera do seu!
    Beijinhos
    Linda

     
  • Às 24 de março de 2009 às 15:43 , Blogger Andre Moa disse...

    Cara Linda, desvende lá este enredo: você tem uma colega de trabalho que é prima da Aida Baptista e estevecom ela no lançamento do livro...é isso? Como se chama essa sua colega? A própria Aida Baptista leu este seu comentário e não entendeu bem a mensagem.
    Beijinhos.
    André Moa

     
  • Às 24 de março de 2009 às 23:01 , Blogger Gustavo Almeida disse...

    Caríssimo amigo,

    Desconhecia este novo blog.

    Estimo que tenha gostado da surpresa da nossa amiga Aida no Voz de Tabuaço. Eu já sabia, mas nada disse, para não estragar a surpresa... Eheheh

    Para mim, sinto que é uma prova de estima, um incentivo a continuar. Um desejo de todos expresso de forma inigualável pela nossa querida Aida.

    Lembre-se, por mais distantes que possamos estar todos, estamos todos consigo.

    Abraço

     
  • Às 25 de março de 2009 às 00:44 , Blogger Andre Moa disse...

    Caro amigo Gustavo,
    porque descobriu o blogue, já deve ter lido o texto do próximo palamfrório, resposta à Aida Baptista, e apercebido da "incumbência" que lhe prognostiquei. Relatar os acontecimentos do lançamento do livro em Lisboa. Não me precipitei nem enganei, pois não?
    Abraço.
    André Moa

     
  • Às 25 de março de 2009 às 01:08 , Blogger Gustavo Almeida disse...

    Acho que não se enganou... A ver vamos como ficou...
    Abraço
    Gustavo

     
  • Às 25 de março de 2009 às 23:45 , Blogger Linda disse...

    Olá André!
    Eu não estive presente no lançamento do livro, era para ir mas não foi possível.
    E sim, a minha colega de trabalho é prima por parte do marido e esteve presente no lançamento de certeza que a Aida sabe de quem falo. (Conceição e Ramiro).

    beijinhos
    Linda

     
  • Às 19 de abril de 2009 às 11:11 , Blogger pantufa4 disse...

    bom dia
    passei por aqui só para saber novas do meu POETA favorito. Espero que esteja tudo a correr bem... desejo sinceramente!!! porque e não é preciso lembrar mas aqui vai " Por amor ao Amor abraço a Esperança " e quem disse isto sabe do que fala e fala do que sabe..com um grande abraço!! e à espera do dia da edição do seu/nosso livro
    Carlos Batista

     

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