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terça-feira, 30 de novembro de 2010

UMA VIDA EM VERSOS COM REVERSOS AOS SETENTA só SESSENTA DE POESIA


I

DE GRAU 8

TERRAMOTO DE 1 DE JANEIRO DE 1980
(e eu que com outros o vivi dele dou este testemunho)

I

No degrau 8
anéis de medo
prenderam-nos
os passos.

Com bocas de adeus
gritámos nomes.

E ali ficámos
abraçados
à espera.

Para morrermos juntos.
Ao compasso de grau 8.


II

15 horas
39 minutos
16 segundos

o grito perfilado
da torre carcomida escorre

até que os olhos fogem para longe
cansados de fixar um tempo assim.
Mas na memória o momento imóvel
circula à velocidade do desespero.

III

apareces-me difusa
bailarina breve
flor arrebatada
angra sem barcos
âncoras mordidas
sensação à beira da rotura

não consigo conhecer-te
luz finita
visão perdida
desejo vermelho
emanação de sangue

terra

susto de fogo

Angra

cidade cinderela
ao bater do desencanto

IV

No patamar suspenso da poeira
foi a cidade violada

a lua passou pelos escombros
clara foi a noite
e acordada

em cada rua mil fantasmas
decadentes
percorreram as ruínas

abraçámo-nos ao longo da noite
em todas as esquinas

V

este sol é cinza-escuro
estes raios sem clarão
é envolvente esta bruma
este mar tem alcatrão
as aves voaram longe
nasceram mortas as flores
prestes o lago está seco
as árvores choram cansaços
o amor mora num beco
perdeu pernas mãos e braços
esta casa é pano cru
esta vidraça é opaca
os muros devoram hortas
ninguém evita a ressaca
certos homens são robots
eu já não sei o que sou
os tectos são terra escura
esta espuma é amarela
houve naufrágio por certo
o esqueleto dos barcos
está pendurado no cais
os abutre rondam perto
a igreja feita de torres
devora a paisagem toda
as crianças são ausentes
a erva está ressequida
os jardins estão doentes…
emigrou daqui a vida?

André Moa



13 Comentários:

  • Às 1 de dezembro de 2010 às 01:03 , Blogger Kim disse...

    André
    Pouco tempo depois dos teus temores estive no local do sismo e tive medo ainda.
    Mal sabia eu que iria entrar na minha vida um resistente temente aos telúricos abalos que foi sentindo e o abanaram, sem nunca se dar por vencido.
    O epicentro é agora em terras de Tabuaço.
    Grande abraço amigo

     
  • Às 1 de dezembro de 2010 às 10:01 , Blogger Laura disse...

    Oh como a nossa alma
    se transforma em agonia
    ao sentir na pele
    a visão e o frio
    dos vendavais que assolaram
    a terra única
    deixando todos
    num fastio selvagem
    emudecendo as vozes
    saídas de dentro.

    Como é duro de ver
    a terra nostra emudecer
    e por uns dias, vaguear à deriva
    que o insuspeito aconteceu
    e a vida jamais voltaria
    a ser vivida da mesma forma
    não por quem à sua partida
    assistiu e resistiu.

    Um beijinho da laura, já conhecia a poesia no livro que me ofereceste em Tabuaço, e todas essas dores te ajudaram a ser o Homem forte e sereno que és, como se depois de passares por esses vendavais de chuva, vento e dor, pudesses ser ainda mais forte na dor!...

    Um abraço da nina laura, a nina que te quer muito bem, mas isso já tu sabes rapaz do meu coração.

     
  • Às 1 de dezembro de 2010 às 14:10 , Blogger Bichodeconta disse...

    Magnifico poema, mais um entre tantos outros..Ser poeta é isso, dar-se em poesia..Esse dia foi marcante também aqui..Estava no ar a preocupação do que poderia ter acontecido ao certo, dos estragos paisagisticos e humanos.. Felizmente estás aí para contar a história, de tal forma que só alguém que tenha vivido este dia , ali o pode descrever.. Um abraço amigo, o desejo de que continues a poemar a minha vida que fica mais rica a cada vez que te leio..Abreijos..

     
  • Às 1 de dezembro de 2010 às 23:16 , Anonymous DAD disse...

    Apesar do terrível que deve ter sido esta época, a criação poética foi excelente!

    Magníficat!

    Beijinho grande,

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 08:31 , Blogger Laura disse...

    Passei, li, segui mas não sem antes mandar um beijinho para ti.


    laura

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 12:11 , Blogger Parisiense disse...

    Haja inspiração para escrever tais versos em tão triste situação...

    Anima-te que a alegria está a chegar...

    Beijokitas grandes

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 15:34 , Blogger Maria disse...

    Querido André
    Não foi na Terceira nem em 1980, que vivi o meu sismo Açoreano. Foi no Pico a 9 de julho de 1998. Nessa madrugada e nos dias seguintes vi de que são feitos os ilhéus. Ao fim de duas horas tudo e todos faziam alguma coisa pelos mais afectados. Não esqueço uma casa sem parede exterior, cujo o interior parecia um cenário teatral. Nunca esquecerei o pórtico do cemitério das Bandeiras e as campas revoltas e partidas. A do meu cunhado estava intacta. Nunca mais vou esquecer, as réplicas dos dias seguintes. Vim-me embora dias depois, com vontade de ficar ali, com aquela gente heróica e boa. As férias acabaram. Ficou-me para sempre marcado aquele dia, em que a terra tremeu, as casas e igrejas ruiram e, eu, a medrosa Maria, não tive medo, porque o amor por aquela gente boa, acolhedora, que no meio das ruínas da sua vida, se preocupou com a mulher que ali estava de férias. Quando me preguntavam se tinha tido medo, respondia sempre o mesmo: tive medo, mas levo a alma cheia de amor e ternura por todos vós. Queria ficar, ajudar a reconstruir tudo.
    Esta é a minha história açoreana. Sem versos, mas com muito amor pelas terras e gentes açoreanas.
    A Susana nasceu na Terceira, não foi? tem de ser uma grande mulher.
    Beijos para ela, Teresinha, Campeão e para ti.
    Maria

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 20:38 , Blogger Andre Moa disse...

    Caro Kim,

    Como o mundo é pequeno! Se calhar até nos cruzámos em alguma rua entupida de pedras e cadáveres.
    É verdade, o mundo é pequeno, mas tem vários epicentros. Agora, como dizes, é Tabuaço, bem menos sísmico e bem mais vinícola. Podemos andar com a cabeça à roda, mas não porque a terra trema, mas sim porque os vapores etílicos nos põem inclinados. Apesar de tudo, inclino-me mais para o vira baquiano. Pode abalar, mas consola.
    Abreijos
    André Moa

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 20:44 , Blogger Andre Moa disse...

    Cara Laura,

    É isso. A dor tempera a alma.
    Beijinhos
    André Moa

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 20:47 , Blogger Andre Moa disse...

    Cara Ell,
    lisonja, à parte, folgo com o que dizes. És um amor.
    Beijinhos
    André Moa

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 20:49 , Blogger Andre Moa disse...

    Querida Dad,

    Costuma dizer-se que quem o feio ama, bonito lhe parece. Que gostes de verdade, tu e todos os leitores, é o grande desígnio cá do rapaz.
    Beijinhos
    André Moa.

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 21:14 , Blogger Andre Moa disse...

    Cara Zezinha,

    Acabas de ser a minha estrela do Oriente, ao anunciares a alegria. Cá estou eu, a esperar, ansioso, por ela.
    Abreijos
    André Moa.

     
  • Às 2 de dezembro de 2010 às 21:21 , Blogger Andre Moa disse...

    Cara Maria,

    a terra tremer nos Açores é o pão nosso de cada dia. Aquela gente está há gerações calejada e preparada para tais ocorrências. Faz parte do seu quotidiano, quase.
    A Susana nasceu, sim, na Terceira, na Cidade da Praia da Vitória. A Teresinha nasceu nas Velas, São Jorge, voltada para o Pico. Aliás, há quem diga (em São Jorge, claro) que o Pico é de São Jorge, pois é desta ilha que aquela atinge o seu maior explendor. E eu corroboro.
    Beijinhos
    André Moa

     

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