SEJAM MUITO BEM VINDOS A ESTE BLOG!--------ENA!-- TANTOS LEITORES DO MEU BLOG QUASE DIÁRIO! ---ESTA FOTO É UMA VISTA AÉREA DA MINHA TERRA,-TABUAÇO! UM ABRAÇO PARA CADA UM DE VÓS! -ANDRÉ MOA-

segunda-feira, 22 de março de 2010

CICLO PAIXÃO

Vista parcial de Tabuaço- como pano de fundo, a mata da D. Aninhas

GUERRA NA MATA DA DONA ANINHAS
Foi em Angola que se iniciou o movimento de libertação dos povos africanos do colonialismo português. Os relatos emitidos pela Emissora Nacional e pelo Rádio Clube Português sobre as barbaridades cometidas pela U.P.A. contra a população branca, constituiu um choque para as populações. Os jornais de então, que em grandes parangonas, exibiam fotografias arrepiantes de mulheres brancas violadas, de cabeças cortadas em exibição e de órgãos sexuais espetados em estacas, contribuíram para o clima generalizado de desconfiança e medo. Com esta terapia de choque, o regime político de então, pretendia justificar o injustificável, isto é, uma intervenção militar em larga escala, dando assim início a uma guerra sem fim e sem esperança. O impacto que estas notícias tiveram no interior do país, nomeadamente nos meios pequenos mais isolados e menos informados, foi devastador e de uma dimensão de tragédia e insegurança, nunca vistos.
Na terra da minha infância e sem se saber porquê, correu o boato da existência de um nicho de terroristas na mata da Dona Aninhas. Os sinos da igreja tocaram a rebate a convocar o povo ao combate. Reuniu-se o povoléu em alvoroço. Os mais afoitos, entre os quais modestamente me incluí, trataram de organizar e armar, com as armas possíveis, uma espécie de pelotão para patrulhar a respectiva mata.
Sem saber como, encontrei-me com uma pistola Mauser nas mãos, pesada e ferrugenta. Possivelmente, sobras da primeira grande guerra. Se estava carregada ou não, ainda hoje não sei. Na altura não me pareceu importante. A arma era, por si só, intimidatória e transmitia-me uma sensação de segurança e invencibilidade. Eu era um adolescente que não tinha medo. Para ter medo, é preciso pensar e eu era mais do tipo de agir primeiro e pensar depois. A juventude nunca pensa que pode morrer.
Como estava a cair a noite, o Francisco da garagem sugeriu, sabiamente, transportar na sua caminheta Fargo um holofote que possuía, para varrer com a sua luz ofuscante a mata a partir da estrada da serra. De forma mais ou menos organizada, lá partimos, em passo decidido em direcção ao objectivo. Não éramos mais de vinte efectivos, como se diz na tropa. Mas marchámos confiantes, sob o olhar comovido dos mais idosos que nos recomendavam cautela, olho vivo e pé ligeiro. A juventude, especialmente a feminina, observa os «combatentes» com orgulho, admiração e medo.
- António! Volta para mim, amor! - diz ela com voz trémula. - Claro que volto, rapariga. Mas primeiro o dever. Está descansada que logo falaremos - digo de forma sacudida para desvalorizar o momento de grande intensidade dramática.
Passámos a noite a jogar às escondidas uns com os outros. Progredindo no terreno, ao mínimo ruído suspeito disparavam as caçadeiras. Não morreu ninguém de forma acidental, por mero acaso. Como não se pode encontrar o que não existe, a tropa regressa ao quartel, isto é, a casa, já o dia rompia. Qual não é o nosso espanto ao depararmos com uma multidão a aguardar, ansiosa e inquieta, o nosso regresso. Soam aplausos, agitam-se braços no ar em sinal de contentamento. De súbito, sinto-me abraçado com ímpeto. Por pouco não caio de cansado. Desfeita em lágrimas e a soluçar, encosta a sua cabeça ao meu peito de forma terna como só as mulheres sabem fazer. Explica-me, comovida, que passaram a noite a rezar pelo nosso regresso. Ninguém arredou pé. Então pergunta-me curiosa: - Mataram os terroristas? A pergunta embaraçou-me - Já não há terroristas! Digo. - Graças a Deus! - suspira ela aliviada. E apertando-me em seus braços murmura suavemente aos meus ouvidos: - Quantos mataste? - Mentindo descaradamente e com falsa modéstia, declaro solenemente: Não os contei. Talvez uns três ou quatro! - Ó meu herói! - declara ela em voz alta e envolvendo-me em seus braços, beija-me apaixonadamente.
Paixão Lima

11 Comentários:

  • Às 23 de março de 2010 às 07:53 , Blogger Osvaldo disse...

    Paixão;

    Nas,... na minha meninice, eu via-os chegar, todos orgulhosos e com ar imponente e importante tal como heróis saídos dos filmes de Hollyood, vindos do Lago, do Fradinho, da Serra da Dona Aninhas ou das matas de São Torcato com a caça presa à cintura e entre coelhos, lebres e perdizes, por vezes também vinha uma raposa ou mesmo um lobo, era tudo ao monte e desta vez os heróis esqueceram a caça na mata?...
    Das duas uma (como diz o povo)... Ou nessa noite não houve caça,... ou esta foi o resgate exigido pelos terroristas para a vossa libertação!...
    Se assim foi, quem ganhou a guerra foram os "turras" de Chavães.
    Um abraço, amigo Paixão.
    Um abraço, irmão
    Osvaldo

     
  • Às 23 de março de 2010 às 07:56 , Blogger Laura disse...

    Minha nossa, ó Paixão! e querias tu deixar de escrever estas coisas lindas com sabor a aldeia, a soldados de luta inglória que mais não fizeram do que empunhar armas descarregadas, claro que só a visão de uma Mauser,

    (conheço-a, o meu pai adoptivo em Serpa Pinto, ensinou-me a atirar com metralhadora, pistola, espingarda, e ganhei com a mauser a atirar sobre uma cerveja a balouçar ao sabor da corrente no rio Cuando, ganhei aos Oficiais Sul Africanos, os maiores, podes crer e o meu paizinho acertava numa carica atirada ao ar... que elogios recebi e aquilo não foi mais que sorte, só podia!...) levava os terroristas todos a fugir!

    Quem espalhou o boato é que merecia uma medalha! nossa, parece que vos estou a ver nas matas do Douro, digo; nas vinhas posso dizer que já conheço Tabuaço por muitas horas de por lá andar, de cima abaixo, montes e vales, socalcos ao lado, ah, mas aquilo aninhar terroristas, nem lembra ao diabo. O bom foi aqueles abraços e se tivesses iventado mais uns quantos mortos, decerto ganhavas uma medalha de ouro e mais meia dúzia de beijos e abraços, enfim!
    Texto lindissimo, verdadeiro pois foi vivido por ti e amigos, vê lá tu que já tinham um holofote, acredito que o mais que espantaram nessa noite foram os pobres coelhos assustados, mas, deu o mote para uma bela história nos momentos de prosa a que nos habituaste. Aquele abraço meu querido Paixão que de beijos já ficaste cheio no dia da aventura!
    Laura

     
  • Às 23 de março de 2010 às 09:44 , Blogger Maria disse...

    Amigo Paixão Lima
    Tal como ontem lhe disse, pode haver poesia na prosa. Eis a prova. Quer algo mais poético do que esta epopeia de meia dúzia de garotos correndo a "selva" com armas que se calhar nem disparavam? A chegada, com as mocinhas cheias de amor e temor pelos seus heróis? Isto é poesia, amigo e chama-se: Juventude.
    Beijinho da
    Maria

     
  • Às 23 de março de 2010 às 19:53 , Blogger Andre Moa disse...

    Caro Paixão
    Ainda bem que reconsideraste. Fico muito satisfeito por mim, por ti, por todos os que, de um dia para o outro, começaram a admirar-te, com o entusiasmo com que te admiro desde os tempos áureos da "caça aos terroristas" na mata da dona Aninhas, bem mais densa, mais extensa, mais misteriosa, por isso, mais atractiva e apetitosa que hoje, se bem que, apesar de muito amputado, continua a ser um belo recanto, um verde e sedutor anfiteatro sobranceiro à vila de Tabuaço.
    Muito calhau me caiu no lombo durante essas refregas! Só por milagre nenhuma foi mortal.
    Está descansado. Tu já estás perdoado. Antes de "pecares" já o estavas, dados os teus bons (digo "péssimos", logo, digo óptimos) antecedentes. Este teu heróico gesto de recuo só veio provocar alegria nas hostes amigas. E, se calhar, a melhor "desculpa" (desnecessária, mas enfim) será esta: como bom duriense que és, foste atacado pela filoxera. Mas como duriense dos melhores, com assinalável rapidez e não menor eficácia, resististe a essa temível praga e cedo mandaste a filoxera às malvas. E passaste a dar, se possível, melhores frutos.
    Ao longo da minha vida profissional, sempre que estava menos predisposto ou menos disponível para arrostar com o trabalho dizia que estava a ser atacado pela filoxera. Reminiscências trazidas da infância e juventude, onde tanto ouvi falar dessa praga, apesar de ela ter ocorrido tantas décadas antes de termos nascido. Foi por isso que me saiu essa da filoxera, doença muito típica do Douro, por isso muito nossa. eheheeh.
    Espero que a mezinha engendrada pela Dona Antónia Ferreira contra a filoxera da vinha a encontres tu nas mezinhas que os médicos te prescreverem. e, rapidamente, para teu descanso e nosso contentamento.
    Dois grandes abraços - um meu e outro de mim.
    André Moa

     
  • Às 23 de março de 2010 às 21:14 , Anonymous Anónimo disse...

    Paixão Lima, caro irmão.

    É comovente o paternalismo do titular do blog na arte de dar uma no cravo, ontem e outra na ferradura, hoje. Mas estás perdoado e isso é que é importante. Não voltes a portar-te mal, para que a filoxera não volte.

    Aproveito para te dar os parabéns por este texto que me fez rir a bandeiras despregadas.És exímio na literatura ficcionista. O Camilo não deixaria de assinar por baixo.

    "Que voltes cedo e bem".

    Um grande abraço.

    Ernesto Leandro

     
  • Às 23 de março de 2010 às 22:20 , Blogger Paixão Lima disse...

    Amigo Osvaldo,
    Se somos filhos da mesma terra, se ao nascermos e com os primeiros berros, respirámos do ar puro das montanhas de Tabuaço, então não há dúvidas que somos irmãos, não de sangue mas de afectos.
    Agradeço-te o comentário, principalmente as reminiscências ao meu passado de caçador. Tudo o que vinha à rede era peixe, isto é, era caça. Apesar de ter morto tanta coisa, pelo menos no prato, não me lembro de ter assassinado nenhum lobo. Nos montes de Tabuaço já não há lobos, infelizmente. Se os há, são lobos de duas patas.
    Os «turras» de Chavães, emigraram na sua maioria para a terra onde vives. Chavães é a aldeia mais suíça de Portugal.
    Recebe afectuosamente, um abraço deste teu irmão em afectos,

     
  • Às 23 de março de 2010 às 23:06 , Blogger Paixão Lima disse...

    Ó minha grande guerrilheira! Custa imaginar-te de metralhadora em punho a espantar os pardais. És o Che Guevara na versão feminina. Os meus parabéns ó gloriosa Laurinha.
    Pega lá um abreijo, como é uso dizer-se, como prémio, como justa recompensa pelo feito.
    A maior combatente das margens do Cuando. Estou também grato pelo abraço que, desta vez não foi tão apertadinho como costuma ser, minha marota.
    Esclareço-te que nunca fico cheio de beijos, principalmente vindos de mulheres como tu.
    Pega lá mais um beijo para completar a conta.

     
  • Às 23 de março de 2010 às 23:54 , Blogger Paixão Lima disse...

    Tem toda a razão Maria. A poesia está em tudo o que a nossa sensibilidade reconhece de poético. Principalmente na juventude, claro. Na juventude pela idade e na juventude pelo espírito. Obrigado pelo seu comentário. Um comentário com qualidade. Ao seu nível.
    Beijos para si, amiga Maria.

     
  • Às 24 de março de 2010 às 00:26 , Blogger Laura disse...

    Qual pardais? para vos espantar nem preciso de metralhadora ehhhhhhh sei que duvidas mas vou ver se encontro a foto no rio Cuando de fato de banho branco a disparar, ora deixa ver se sei dela...ganhei eu aqueles homis todos, um general o Dennis Hearp o Comandante Nass, ah, e um dos oficiais convidou-me para ir jantar a Serpa pinto e ao cinema, mandou o convite pelo meu paizinho adoptivo, eu respondi-lhe que não queria ir porque; primeiro não falava Inglês, e segundo porque o trajecto até á cidade (estavamos no mato) era de mais de meia hora por picadas e sem luz, ahhh iamos falar de quê? nanja euzinha não fui...ia com os meus amigos da minha raça e que falavam a minha lingua...

    mas a disparar de metralha ou pistola, ganhei a todos e a cerveja não era um alvo fácil, já que balouçava com as águas do rio...Guerrilheira até fui ao pensar que vinha lá um leão e o meu vizinho o professor Pardal como eu lhe chamava, já ia a fugir e eu empunhei a metralhadora dele ehhh e fui encostada á parede, mas não era leão nenhum...
    Belos tempos ó Paixão...
    Beijinho da laura

     
  • Às 24 de março de 2010 às 01:34 , Blogger Paixão Lima disse...

    Caro Moa, meu Irmão,
    O teu comentário que agradeço, parece, à primeira vista, um sermão do nosso admirado Padre António Vieira. Estás a valorizar-me em demasia, meu caro. Se é como dizes, que começaram a admirar-me de um dia para o outro, o que não é verdade, seria surpreendente e era caso até para me dar o flato. Não vejas o facto com os olhos da amizade, que são sempre enganadores. Por isso não vamos exagerar. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Fiquemo-nos pelas meias-tintas.
    Quanto à filoxera, tens toda a razão. Ainda hoje me sinto um pouco filoxerado. Mas vai passar. Se não passar, passo-me e vira em passamento. Convém esclarecer, que a filoxera, não é uma doença em si. É um insecto hemíptero que provoca a tal doença. Quero com isto dizer que estou com um insecto às costas. O que não deve ser grave, se não for do tipo da mosca tsé-tsé, já que o sono é a morte aparente. Uma espécie de coma. No entanto, há inteligencias no nosso mercado de ideias, que são de opinião que o sono é o bálsamo da inconsciência, o que não deixa de ter piada.
    Sem pretender comentar o teu último e-mail, pois há coisas que não se podem comentar, sempre te digo que só acertaste um tiro no porta-aviões. Para não te pores a adivinhar, o tiro certeiro foi no final. Gostei muito o que só prova quanto o teu espírito é fértil.
    Noto, com alguma surpresa, que já não me tratas por irmão. Será que fui despromovido sem saber?!
    Não te abespinhes Moa, que isto é só graça e não vale a pena. Já sabes quanto sou mau. Mais do que mau, sou péssimo.
    Recebe um abraço «apertadinho» como diz a Laurinha, do António, do Adriano, do Seixas, do Paixão, do «de» e do Lima. Como vês, não te faltam abraços.

     
  • Às 24 de março de 2010 às 02:14 , Blogger Paixão Lima disse...

    Por fim, finalmente, falta agradecer o comentário do meu Irmão Ernesto, mais conhecido pelo resmungão. Os últimos, são sempre os primeiros. Este meu Irmão preocupa-me. É o mais rebelde e indisciplinado. Tarda a entrar nos eixos. Mas facto curioso. Quando olho para ele, estou a ver-me. Quando o ouço, estou a ouvir-me. Quando me vejo ao espelho, estou a vê-lo. Só que ele é um grande poeta e eu, infelizmente, não sou poeta mas gosto e entendo de poesia. No meio desta confusão toda será que estou a ficar senil?! Creio que não. Este sentimento tem um nome.
    Um grande abraço, Irmão Ernesto do teu Irmão António, o Camilo da Senhora da Hora.

     

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