UMA VIDA EM VERSOS
foto da época - Susana, Pedro Miguel, Teresa e Necas, o meu irmão mais novo que morreu há 30 anos, vítima do acidente de viação de que falarei adiante, que também vitimou os meus três filhos, tendo o Luís Manuel, o mais novo, morrido também
AOS SETENTA SÓ SESSENTA DE POESIA - 10
ANTOLOGIA DE UM DESCONHECIDO (continuação)
CANTATA DA PAZ EM DÓ MENOR (continuação - últimos poemas deste primeiro livro da Antologia de um Desconhecido)
15.º andamento – “”mosso”
ADEUS LUA DOS POETAS[1]
a lua é fóssil
a terra é odre
à lua vai-se
a terra é guerra
a lua é cheia
a terra esvai-se
a lua é lua
a terra é rua
a lua é nua
a rua sangra
a lua U.S.A.
na terra abusa
a lua é TASS
na mesma face
a rua espuma
raiva capaz
de lançar à lua
três bofetadas:
paz
paz
paz
****
16.º andamento – “allegro moderato”
“fortissimo”
QUE LEVE É A NEVE[2]
batem forte
fortemente
a valer
cacetete não é neve
e é de homem não bater
*****
17.º andamento – “vivace”
ADEUS LUA DOS POETAS[1]
a lua é fóssil
a terra é odre
à lua vai-se
a terra é guerra
a lua é cheia
a terra esvai-se
a lua é lua
a terra é rua
a lua é nua
a rua sangra
a lua U.S.A.
na terra abusa
a lua é TASS
na mesma face
a rua espuma
raiva capaz
de lançar à lua
três bofetadas:
paz
paz
paz
****
16.º andamento – “allegro moderato”
“fortissimo”
QUE LEVE É A NEVE[2]
batem forte
fortemente
a valer
cacetete não é neve
e é de homem não bater
*****
17.º andamento – “vivace”
O TEMPO NÃO É DE RISO
não obrigues teu filho a sorrir
tão triste em tão tenra idade
falta-lhe o jeito
a espontaneidade
morde-lhe nos lábios
o sangue a fluir
tão sem razão
tão contra vontade
*****
18.º andamento – “allegro”
A SUPREMA ALIENAÇÃO
já foi raio foi trovão
nuvem sol lua foi vento
cobra lagarto dragão
boneco céu passatempo
fantasia arrepio
saraiva chuva metal
fonte oceano mar rio
mostrengo universal
foi guerreiro foi tirano
manda-chuva ditador
mongol hebreu ariano
foi pedra árvore flor
foi uno binário trino
quadrúpede ideia fogo
fortuna sorte destino
força bruta pedagogo
taumaturgo vingador
fulgor eterno avantesma
sempre outra coisa e a mesma
…………………………….
só nunca foi o que interessa
homem dos pés à cabeça
do seu destino senhor
em verdade e em amor
*****
19.º andamento - allegro vivace”
A RAIVA UNIVERSAL
o coro é grande
alinha e canta
é a raiva universal em marcha
a humanidade a acordar
da milenar letargia
é o galo a anunciar
nova alvorada
outro dia
não te esquives ao frémito da aurora
não renegues a pele
o osso
o sangue
os dentes
não te esqueças de que és homem
chegou a hora de em homem te tornares
de mãos dadas com outros homens
mãos de boa vontade
semeando paz na terra
André Moa
[1] Corria, cinzenta e parda, a década de 60. EUA e URSS ensaiavam a guerra das estrelas. Ambas se esfalfavam para conquistar, em proveito próprio e exclusivo, a lua. Os povos que continuassem a suspirar pela paz. Os poetas que continuassem a entoar loas à lua, enquanto as duas superpotências tudo faziam para violar em primeiríssima patada o apetecido corpo iluminado, o romântico espelho celeste.
[2] Cá por casa, a polícia continuava a malhar forte e feio na malta, em tudo quanto era gente de paz e de bem e teimava em manifestar-se contra a guerra colonial, ainda que encapotadamente, contra a guerra do Vietname, antes das manifestações nos EUA que precipitariam o fim da guerra, e ousava mostrar a sua indignação pelo triste estado de coisas a que isto chegara e continuava. E prendia arbitrariamente, e rapava cabeças, e torturava, e matava, e castigava a estudantada com a ida forçada e a destempo para uma das frentes de batalha.
não obrigues teu filho a sorrir
tão triste em tão tenra idade
falta-lhe o jeito
a espontaneidade
morde-lhe nos lábios
o sangue a fluir
tão sem razão
tão contra vontade
*****
18.º andamento – “allegro”
A SUPREMA ALIENAÇÃO
já foi raio foi trovão
nuvem sol lua foi vento
cobra lagarto dragão
boneco céu passatempo
fantasia arrepio
saraiva chuva metal
fonte oceano mar rio
mostrengo universal
foi guerreiro foi tirano
manda-chuva ditador
mongol hebreu ariano
foi pedra árvore flor
foi uno binário trino
quadrúpede ideia fogo
fortuna sorte destino
força bruta pedagogo
taumaturgo vingador
fulgor eterno avantesma
sempre outra coisa e a mesma
…………………………….
só nunca foi o que interessa
homem dos pés à cabeça
do seu destino senhor
em verdade e em amor
*****
19.º andamento - allegro vivace”
A RAIVA UNIVERSAL
o coro é grande
alinha e canta
é a raiva universal em marcha
a humanidade a acordar
da milenar letargia
é o galo a anunciar
nova alvorada
outro dia
não te esquives ao frémito da aurora
não renegues a pele
o osso
o sangue
os dentes
não te esqueças de que és homem
chegou a hora de em homem te tornares
de mãos dadas com outros homens
mãos de boa vontade
semeando paz na terra
André Moa
[1] Corria, cinzenta e parda, a década de 60. EUA e URSS ensaiavam a guerra das estrelas. Ambas se esfalfavam para conquistar, em proveito próprio e exclusivo, a lua. Os povos que continuassem a suspirar pela paz. Os poetas que continuassem a entoar loas à lua, enquanto as duas superpotências tudo faziam para violar em primeiríssima patada o apetecido corpo iluminado, o romântico espelho celeste.
[2] Cá por casa, a polícia continuava a malhar forte e feio na malta, em tudo quanto era gente de paz e de bem e teimava em manifestar-se contra a guerra colonial, ainda que encapotadamente, contra a guerra do Vietname, antes das manifestações nos EUA que precipitariam o fim da guerra, e ousava mostrar a sua indignação pelo triste estado de coisas a que isto chegara e continuava. E prendia arbitrariamente, e rapava cabeças, e torturava, e matava, e castigava a estudantada com a ida forçada e a destempo para uma das frentes de batalha.
12 Comentários:
Às 6 de abril de 2010 às 20:53 , Paixão Lima disse...
Meu caro André Moa,
Lamentar o sucedido, é fácil. Pronunciam-se as palavras certas e...já está.
Sentir a morte de entes queridos, vítimas de um acidente brutal e absurdo, é ser tocado por um ferro em brasa, no mais íntimo do nosso ser. Não há palavras que traduzam a dor de Pai e Irmão. O tempo passa, o tempo cura. Não é verdade. Fica em nós o amargo de fel na nossa alma e uma amargura infinita que se eterniza e morrerá connosco. Como explicar o inexplicável?
E há sempre uma pergunta angustiosa que não nos cansamos de formular. Porquê?
Um abraço.
Às 6 de abril de 2010 às 22:42 , Kim disse...
Amigo André!
Eu atravessei estas pontes. Naveguei nestes rios. Aportei nestes cais.
Enquanto os cabelos se enfeitavam de flores, as armas ribombavam chamando por mim. Fiz-lhes a vontade e regressei para atravessar as tais pontes,os tais rios, os tais portos.
E sobrevivi como os olhos cheios de ...injustiças.
Grande abraço para ti meu amigo!
Às 7 de abril de 2010 às 00:21 , Paixão Lima disse...
Caro André Moa,
A tua poesia tem harmonia, musicalidade, ritmo e homor. Também amor, pelo desejo de mudança e pela crítica severa mas lúcida da sociedade de então. Uma poesia à Gedeão. Faz-me lembrar a da Luisa que sobe e desce a calçada e que não tem tempo p´ra nada.
«O tempo não é de riso». O tempo, o mau tempo, parou no tempo e está para ficar. O tempo passa, mas afinal não passa. Continua tudo como dantes (quartel general em Abrantes).
Se naquele tempo estava mau, agora não está melhor.
Aquele abraço e desculpa o derrotismo.
Às 7 de abril de 2010 às 08:17 , Laura disse...
Querido Moa, os Seres que se vão, nunca de nós se retiram, não de todo! Não irias fazer do ser Supremo, um ser qualquer igualado ao Homem! Não, no caminho voltaremos a encontrar todos aqueles que amamos, será apenas como um mudar de bairro, só isso. Achas que o Ser Supremo iria dar-nos a escolher entre amar e amar, e no fim deixava-nos sem ele o amor, para sempre? Claro que não. Espera, um dia voltarás a ter os seres amados ao teu lado, tão simples assim!
Não me venhas rezar o credo da forma que sabes e sentes...não é preciso.Ambos sabemos como pensamos e ambos falamos na nossa forma de ser...
Acredita que estaremos juntos num dia qualquer das nossas vidas mas do lado de lá, será belo podermos falar do que realmente está á frente dos nossos olhos! não sejas tão pão, pão, queijo, queijo, dá lugar a uma pitada de levedura no pensamento...vá lá, tu entendes-me!...
Ah, as guerras, a ditadura, o quero posso e mando do homem pelo homem, que pobreza de Leis e de espiritos nos regem para ser assim como é e como foi. Mudam-se os tempos, já o dizia Camões, mudam-se as vontades, a mesquinhez continua a imperar na maioria dos cérebros, e, a vida continua a ser uma loucura para a maioria do Povo que continua a sofrer... Um dia tudo mudará, sinto que sim. Já anda no mundo a maioria dos Seres de Luz, seres Guerreiros que trarão a concórdia através das Palavras sensatas que trazem em si!...
Amo-te rapaz guerreiro que já fazias a tua parte sendo tão jovem...Nem sei como não foste fazer companhia a muitos homens que tinham força para falarem livremente...atrás das grades de uma prisão!
Hoje os nossos jovens preferem alhear-se de tudo e viver contrariados entre charros e garrafas na mão, é isso que é mau e até as miúdas já os copiam há muito. Já pararam de lutar, apenas lutam pelos bens materiais, a aquisição de bem estar para o Povo desapareceu, cada um é um e só pensa em si, logo, estamos mal muito mal entregues a quem faz da vida uma aventura!...
Aquele apertadinho abraço.
Hoje vou de novo ser motorista, ainda compro um uniforme...
laura
Às 7 de abril de 2010 às 12:37 , Anónimo disse...
André Moa, irmão
Parabéns. A ANTOLOGIA DE UM DESCONHECIDO já não é. Hoje, conhecido e reconhecido, mostras, à saciedade, o poeta-filósofo que nos faz pensar. Compreendo e admiro a tua poesia. Falas de tudo, de todos e para todos como cidadão do mundo que és.
E até aqui revelas a tua coragem. Como foi possível a publicação nos anos 60 sem experimentares o degredo?! Dobro, mais uma vez, a espinha à tua frente.
Um abraço fraterno de muita amizade.
Ernesto Leandro
Às 7 de abril de 2010 às 17:01 , Laura disse...
Costuma-se dizer que; ao menino e ao borracho...põe Deus a mão por baixo...
Já não eras menino e muito menos (borracho) assim, podes crer que tiveste interferência divina na tua vida, se escreveste e publicaste esses poemas todos! Caramba ó Moa, mas que homem!... mas que arrojo!
Beijinho, laura
Às 7 de abril de 2010 às 20:45 , DAD disse...
Fico comovida ao ver esta foto dos tempos em que tudo parecia ser fácil e sereno e a vossa família vivia feliz, sem as terríveis perdas que aconteceram inesperadamente e fizeram mudar o curso de tudo.
Beijinho grande da vossa amiga,
Às 7 de abril de 2010 às 21:45 , Je Vois La Vie en Vert disse...
Uma vida em versos
Há versos tristes
Há versos alegres
A vida é assim feita
De momentos tristes
De momentos alegres
Fez de ti
Um homem sofrido
Um homem vivido
Um homem amigo
Um homem combativo
Um poeta, um bardo
Beijinhos
Verdinha
Às 7 de abril de 2010 às 22:03 , Laura disse...
Caramba Verdinha, como escreveste fino...fizeste-me ir ao Dicionário ver o significado de bardo...
POETA ENTRE OS CELTAS E GALOS QUE EXALTAVA O VALOR DOS HERÓIS OU POETA LIRICO.
Assim, muito bem descrito. Nice...
É isso mesmo ó Moa, és um Bardo! ahhhh...quem não souber fica a saber...
Beijinho aos dois e a todos, da, laura
Às 7 de abril de 2010 às 23:24 , Osvaldo disse...
Caro irmão;
Esta foto vale por muitas poesias, direi mesmo, por uma biblioteca de poesias porque a foto em si é uma grande Poesia de Vida...
E por isso, hoje só olho comovido,... a foto.
Um abraço, irmão.
Osvaldo
Às 8 de abril de 2010 às 15:25 , Laura disse...
Um dos moços que foi empurrado para Angola, é aquele que me escrevia cartas e cartas de amor, ele foi enviado pela revolta que fez ao não querer ir para a guerra..., ainda fugiu para o Luxemburgo, mas, quando voltou mandaram-no logo para Luanda, e...mato, era alferes...e, mora aqui em Braga! quase Advogado, cortaram-lhe as asas e não acabou o curso...enfim, é a mania que o homem tem de querer dominar o outro homem... laura (vá que há mulheres que querem fazer o mesmo, dominar as outras segundo os seus interesses, enfim!...
Às 8 de abril de 2010 às 19:56 , Andre Moa disse...
Queridas amigas,
Caros amigos,
Chegou a hora de mudar de Post,
deixar de lado tanta emoção.
Bem-hajam todos. Mas por mais que eu goste
dos vossos mimos, vou p'rá reflexão.
A vida continua. Por isso, vamos mudar de página.Tá?
André Moa
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