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domingo, 30 de maio de 2010

CRÓNICAS NO FEMININO
















CANETA DE TINTA PERMANENTE
No alto da colina, o edifício mantém-se. A diferença é que antes não existia a aveni­da rasgada de alto a baixo, fruto da teimosia de uma mulher (das poucas que após Abril passaram a governar autarquias) contra a vontade de al­guns, provincianamente agarrados à pequenez do seu mundo. Outra diferença ainda é que há muito deixou de existir a separação entre os gé­neros. Os dois blocos – masculino e feminino – modelo padronizado das escolas do Estado Novo, con­tinuam de pé, se bem que as aulas e o recreio não sejam já determinados pelas linhas anatómicas de quem os frequenta. Tempos de mudança que a minha avançada idade aplaude, mas não me impede de viajar pelo pas­sado longínquo de menino pobre.
Insisto em lembrar caras de colegas, mas não consigo; elas esfumam-se na neblina que apaga os nomes sem rosto, escritos no rectângulo negro da lousa, de cada vez que o professor faz a chamada. Ficou apenas um: de traço fino, bem delineado, tez clara, cabelo aparado, bata impecavelmente branca e botas (luxo de poucos), que lhe aqueciam os pés. Tinha um ar frágil, como quase todos os meninos cria­dos com as mordomias das famílias abastadas. Não se embrulhava em brigas, não rebolava pelo chão, não arranhava os joelhos no pó da terra, porque tinha de chegar a casa com o mesmo ar com que tinha saído – o cheiro a limpo e a franja moldada pela camada de brilhantina. Não o invejávamos no recreio, porque lhe eram vedadas todas as brincadeiras que descambassem no desalinho da sua figura de manequim. No entanto, dentro da sala de aulas, ele possuía o brinquedo mais cobiçado por to­dos – uma caneta de tinta perma­nente. Enquanto nós arranhávamos as palavras e os números, por força de um aparo que há muito havia ul­trapassado o prazo de validade, ele comprazia-se em fazer deslizar, so­bre a folha pautada do caderno, a sua caneta de tinta permanente. E nós ficávamos pasmados a olhar para aquela maravilha que não pre­cisava de, constantemente, mergulhar no tinteiro do tampo da carteira, para se reabastecer de autonomia para mais uma cópia ou uma série de operações aritméticas. Ele escre­via e olhava-nos de soslaio, porque, no enviesado do seu olhar, percebia o desejo mal disfarçado que todos tínhamos de lhe pedir emprestado o objecto dos nossos sonhos. Até os exercícios de caligrafia ficavam mais bonitos! Pudera... ele não precisava de interromper o curso de nenhuma das hastes porque, no ventre da sua caneta, havia um êmbolo de borra­cha que guardava o suficiente para horas de trabalho.
Um dia descobri a solução. O que me faltava em riqueza, sobrava-me em rapidez e agilidade mental. Propus-lhe um negócio: ele em­prestava-me a caneta por uns minu­tos e eu fazia-lhe os trabalhos de casa. E assim mantivemos esta cum­plicidade de um comércio vivido na clandestinidade de outros olhares.
De cada vez que olho para o meu velho e desbotado diploma do ensino elementar, o jovem aprumado da Mocidade Portuguesa que, do lado esquerdo segura o estandarte, faz-me sempre lembrar o menino da caneta de tinta permanente – um aprumo prenhe de orgulho, por força de uma diferença que lhe alimenta as entranhas.
AIDA BAPTISTA

Apontamentos anticancro 10

«Antes de roçarmos a mortalidade, a vida parece-nos infinita, e preferimos manter esta perspectiva. Parece que nunca nos faltará tempo para irmos em busca da felicidade. Primeiro, tenho de acabar o curso, pagar os empréstimos, criar os meus filhos, reformar-me… mais tarde hei-de preocupar-me com a felicidade. Quando deixamos para amanhã a procura do essencial, podemos deixar a vida escapar-nos por entre os dedos sem sequer a termos saboreado.
Por vezes, o cancro cura esta estranha miopia, esta dança de hesitações. Ao expor a brevidade da vida, um diagnóstico de cancro pode restituir à vida o seu verdadeiro sabor.»
Do livro «Anticancro – um novo estilo de vida» de David Servan-Schreiber.

6 Comentários:

  • Às 31 de maio de 2010 às 07:56 , Blogger Laura disse...

    Ah, estou sem pc, emperrou e não ata nem desata, neste momento uso o do manel que vai para a escola daqui nada e...fico a navegar em águas de bacalhau..

    Amei ler...usei os mesmos aparos na caneta que era um pedaço de madeira, os aparos que partiam ou abriam ao meio, tanta a força que exercia neles, mas, não esqueças que com ele, aprendemos a escrever e mais que isso, a delinear uma linda letra, coisa que a caneta não deixava...
    Tive das duas, a primeira era o que se usava, a segunda entrou naturalmente no seu tempo...
    Viste, tiveste de trabalhar a dobrar mas tiveste uma caneta de tinta permanente, rasgaste calças , esfolaste joelhos, mas, viveste a vida e o menino bem, esse sabe lá o que é isso...
    Lindo relato, já tinha saudade de ler coisa assim escrita por ti.
    Aquele apertadinho abraço, hoje estarei sem o desgraçado do meu pc e andarei pela rua a tratar de assuntos meus, assim..té logo á noite..laura

     
  • Às 31 de maio de 2010 às 09:47 , Blogger Kim disse...

    A estória da caneta de tinta permanente é um pouco como a do menino que era dono da bola mas não sabia jogar com ela.

    O apontamento ANTICANCRO de hoje é duma profundidade tamanha.
    Às vezes, a desgraça acaba por nos fazer conhecer a verdadeira felicidade.
    Grande abraço amigo André

     
  • Às 31 de maio de 2010 às 18:45 , Blogger Osvaldo disse...

    Cara Aida;
    Nunca tive a farda da Mocidade porque politicamente e economicamente não pertenciamos à alta "casta tabuacense" onde apenas os filhos dos mais abastados as poderiam usar e eu era apenas o filho do chauffer da camioneta de passageiros do trajeto Longa-Tabuaço-Régua ou da Paredes da Beira-Tabuaço-Pinhão. Nunca me fêz falta até porque eu era mais levado a belos despiques confrontoais na Relva ou no velhinho Estádio do Bacalhau e claro, se tivesse que usar assa farda, seria severamente punido pelos politicamente corretos "engraxa botas" do antigo regime. Não é que eu tivesse algo contra esse famigerado antigo regime, até porque nem conhecia o dito Senhor que caiu da cadeira, mas sim contra os "escovas" que nos enfernizavam e a alguns escravizavam a vida.
    Talvez por isso nunca tive caneta de tinta Permanente enquanto os filhos dos "engraxas" tinham. Mas nunca me fez falta, porque afinal... também aprendi a escrever.
    Mas havia pessoas maravilhosas e lembro aqui com todo o respeito a professora Amália. Não era e nunca foi minha professora. Eu era e sempre fui aluno do professor Machado. Mas no meu exame da 3° Classe, sim porque nesse tempo na 3° e na 4° havia exames, na prova de matemática, tinha o (pequeno) grupo da Tinta Permanente, o grupo dos da Pena e Lousa e alguns rebeldes da situação (como eu) que queriam apenas uma oportunidade de mostrar que não era a Caneta mas sim a Tinta que deixava marcas. E quando os examinadores vindos de Viseu acabaram de ditar as questões eu fiquei imóvel e a professora Amália perguntou-me se eu não ia responder. Foi então que eu disse que já tinha respondido. A professora Amália pegou-me a folha de cima da carteira, olhou-a e com um sorriso de ternura disse-me; Osvaldo, podes sair.
    Não precisei de uma Caneta de Tinta Permanente para fazer as equações e responder aos problemas matemáticos... enquanto um dos examinadores as ditava!.
    Hoje, tenho algumas de grandes marcas, que me são ofertas por pessoas com grande importância a nivel estatal e cultural de vários países. Nunca as uso, mas confesso que sempre me deixam um certo sorriso quando as recebo...
    As voltas que o Mundo dá!...

    Beijinho de respeito para a Aida e um grande abraço para o meu irmâo Moa

     
  • Às 31 de maio de 2010 às 22:44 , Blogger Andre Moa disse...

    Laura, este texto é da Aida Baptista e não meu. Atenção: pare, escute e olhe.
    É isso mesmo, amigo Kim. A felicidade quase sempre mora ao nosso lado. Nós é que, distraídos, raramente a vemos.
    Pois foi, irmão Osvaldo: mordíamos a língua, borratávamos os dedos, mas o saber, esse, chupávamo-lo nós, que nem mata-borrão, com o bestunto que a natureza nos deu e colocou na cabeça e não na ponta da caneta.
    Abreijos
    André Moa

     
  • Às 31 de maio de 2010 às 23:51 , Blogger Laura disse...

    Pare, escute, olhe e pensei que era teu por ter os ninos com a farda da mocidade Portuguesa, mas que patató eu fui...vá, linda a crónica da senhora, as minhas desculpas... parece que estou num certo almoço e não via mais ninguém... Beijinho aos dois, laura

     
  • Às 1 de junho de 2010 às 16:31 , Anonymous Anónimo disse...

    Caro irmão André Moa.

    A nossa amizade inquebrantável nada tem a ver com o teu blog. Nasceu antes dele e há-de continuar para além dele até que a morte nos separe.

    Pressinto que os meus poemas e prosas poéticas, esparramados no post, estão a aborrecer os habituais comentadores. Continuar seria um desrespeito para com os teus amigos assíduos no acompanhamento da tua doença. Os seus carinhos, incentivos e preocupações comovem-me. Sem os conhecer, merecem-me, apesar disso, a minha eterna amizade.

    E quero pagar-lhes o tanto que te dão com o meu afastamento. É o mínimo que posso fazer.

    Continuarei a dar-te música de Mozart através do meu telefone. Que paciência a tua!

    Um grande abraço e um beijo da Judite.

    Ernesto Leandro

     

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